"Deu ruim mesmo, galera!"

Malhação – Toda Forma de Amar conseguiu um feito e tanto: ser atropelada pelo próprio final, mesmo tendo se arrastado por meses a fio com uma história que andava em círculos. A trama de Emanuel Jacobina claramente não tinha fôlego para durar mais de um ano, como deveria. Mas foi obrigada a antecipar seu desfecho em um mês, por conta da pandemia de coronavírus, e acabou não tendo tempo para uma conclusão digna, embora a trama em si já tivesse se esgotado há meses.

Toda Forma de Amar foi uma temporada irregular. Primeiro, é preciso salientar que, desde que Cao Hamburger assinou Viva a Diferença, Malhação atingiu outro patamar. A temporada de 2017, que será reapresentada a partir da próxima segunda, trouxe uma proposta mais madura, livrando-se de certos vícios que perduravam na novela adolescente. Cao tratou Malhação como uma novela com jovens, e não um programa para jovens com toques de novela, e imprimiu veracidade e assuntos relevantes em meio ao folhetim tradicional. Deu certo. E influenciou as temporadas que vieram a seguir.

Foi nesta esteira que Toda Forma de Amar surgiu. Sem dúvidas, foi o êxito de Viva a Diferença que levou o autor, que já assinou outras temporadas da atração, a criar uma leva com um tom mais adulto e diferente. Jacobina, que sempre foi adepto da velha fórmula “casal ameaçado por megerinha”, desta vez propôs uma história com novos contornos. Ao centrar sua trama na briga judicial entre Rita (Alanis Guillen) e Lígia (Paloma Duarte) pela guarda da pequena Nina, o autor propôs uma trama novelesca que não necessariamente tinha a ver com juventude, embora seus personagens principais fossem adolescentes. Só isso já configura uma importante mudança de paradigma.

Sendo assim, a história de amor principal de Toda Forma de Amar não tinha uma vilãzinha para atrapalhar. Era justamente a batalha entre Rita e Lígia que atrapalhava o romance da primeira com Filipe (Pedro Novaes), o filho da segunda. Paralelamente, Rita tinha um grupo de amigos que trazia, cada um, um molho à trama, com histórias paralelas que abordavam assuntos relevantes, como violência urbana, racismo, educação e homossexualidade. Este último tema, aliás, foi no geral, bem abordado. Guga (Pedro Alves) enfrentou as típicas dificuldades da descoberta da sexualidade, enfrentando conflitos familiares para viver seu amor por Serginho (João Pedro Oliveira).

Entretanto, por mais que a história tivesse boa proposta e bons personagens, a trama se mostrou sem musculatura para atravessar o ano. Não demorou muito para a briga judicial entre Rita e Lígia passar a andar em círculos, num “ata nem desata” que começou a aborrecer. Rita não tinha outro assunto que não fosse a briga para ficar com a filha. E Lígia teve momentos de pura apatia, chegando até a sumir em alguns capítulos. O autor poderia ter abordado algumas nuances nesta trajetória. Por exemplo, se Rita conseguisse a guarda provisória, a briga se inverteria, trazendo novos conflitos. Mas isso nunca aconteceu. A batalha foi levada em banho-maria.

Por conta disso, Toda Forma de Amar mudou de rumo com a chegada de Rui (Rômulo Neto), o pai biológico de Nina, e que assumiu as vilanias na reta final. Bandido perigoso, o vilão tocou o terror, ameaçou meio mundo e esteve envolvido no sumiço da mocinha. E foi aí que Malhação mostrou o quanto já não tinha trama. Rita ficou mais de um mês desaparecida, num sequestro que nunca se justificou. Ali ficou claro que a história não tinha mais para onde ir e estava apenas ganhando tempo até maio chegar, quando a trama terminaria.

Porém, a pandemia de coronavírus se revelou o grande vilão desta temporada. A decisão de encerrar a trama um mês antes fez com que a história tivesse um fim atropelado, mesmo em meio à enrolação. O sequestro de Rita foi resolvido sem qualquer emoção, e a cena final foi focada em Rita e Filipe narrando os finais dos personagens. Malhação ganhou seu momento Brida, a novela da Manchete que teve seu final narrado em meio a cenas de arquivo (Metamorphoses, da Record, também terminou assim, diga-se).

Obviamente, encerrar Malhação antes da hora, dado o contexto, foi a melhor solução no momento. Porém, esta situação só reforça uma antiga impressão: Malhação está apostando em temporadas longas demais. Vidas Brasileiras, a trama anterior, já sofreu deste mal, mesmo apostando em histórias pontuais. E Toda Forma de Amar deixou isso ainda mais claro. A emissora poderia apostar em temporadas que durassem menos de um ano, como uma novela tradicional. Viva a Diferença foi assim: durou menos de um ano e a trama rendeu o que tinha que render neste período.

Claro, ninguém poderia prever este caos mundial que estamos vivendo. Mas, se a previsão de Toda Forma de Amar fosse de menos capítulos, a emissora teria um problema menor para resolver. E, talvez, não se visse obrigada a radicalizar tanto neste desfecho pouco digno.

André Santana