"Fui!"

Um dos assuntos que mais rendeu neste início de 2020 na TV foi a saída de Aguinaldo Silva da Globo, depois de 40 anos de bons serviços prestados. O novelista terá seu contrato encerrado no final de fevereiro e o acordo não será renovado. Com isso, o autor de sucessos antológicos, como Roque Santeiro, Vale Tudo, Tieta, A Indomada e Senhora do Destino, encerra um ciclo de muitos sucessos e alguns fiascos.

Muito já se falou sobre isso. Os principais críticos de TV analisaram a situação, que é pouco comum dentro da trajetória da Globo. Houve autores que deixaram a casa, ou se aposentaram. Há uns poucos casos de não-renovação por falta de perspectiva, como Antonio Calmon. Porém, dos veteranos do prime-time, até aqui, só aconteceram “afastamentos”, como Manoel Carlos, Gilberto Braga e Benedito Ruy Barbosa. Nunca uma dispensa, como aconteceu agora. Por isso, muitos apontaram o fato como consequência do fracasso de O Sétimo Guardião, última novela de Silva da Globo, que amargou baixa audiência, críticas pesadas e bastidores conturbados.

Entre tantas análises, uma das que me chamou a atenção foi a de Mauricio Stycer. O crítico do UOL lembrou que a Globo, de maneira geral, vive uma fase de transformações e corte de custos. E Aguinaldo Silva, veterano que é, tinha um alto salário. E, como se diz, a “era dos altos salários” na emissora já está acabando. Ou seja, a dispensa de Silva passa, também, por uma questão econômica. A emissora vem lançando novos autores, que são mais baratos, e começa a dispensar os veteranos, que já estão caros.

Porém, como explicar que Manoel Carlos (por exemplo) está “encostado”, enquanto Silva foi demitido? Afinal, ambos são do prime-time, com um histórico de sucessos incontestáveis, e que não foram felizes em suas últimas produções. Das duas, uma: ou Maneco e seus companheiros “das antigas” também devem ser dispensados ao final de seus contratos, ou o fracasso de O Sétimo Guardião pode ter pesado, sim, na decisão da emissora. Não o fracasso em si, já que todo autor tem seus erros. Mas a maneira como Silva lidou com ele, reclamando publicamente da direção e se recusando a mudar os rumos de sua história. Há quem diga que a relação entre autor e direção de dramaturgia (leia-se Silvio de Abreu) tenha se desgastado.

No entanto, ainda concordo com Stycer. Não é de hoje que a Globo tem dispensado figuras consideradas intocadas. Nos últimos anos, a emissora não renovou com vários atores, jornalistas, diretores e apresentadores. O corte, então, chega às novelas. Assim, acredito que mais novelistas veteranos sejam dispensados em breve. Uma pena, afinal, são profissionais extremamente bem-sucedidos, que em muito contribuíram na consolidação das novelas brasileiras. Mas, ao mesmo tempo, trata-se de uma renovação natural do mercado. Há novos profissionais chegando, e alguns mais velhos não escondem o cansaço e a vontade de parar.

André Santana