"Não tô a cara do Faustão?"

Em 2018, o canal que mais lançou novidades em sua programação foi a Band. Depois de anos com a grade sucateada, entregue a enlatados, caça-níqueis e religiosos, a emissora dos Saad fez uma série de investimentos para tentar recuperar sua saúde financeira, abalada em razão de vários equívocos realizados nos últimos anos. Foram muitas as novidades do ano: Amaury Jr., Melhor da Tarde, Superpoderosas, Vídeo News, Cozinha do Bork, Agora É com Datena e Show do Esporte foram os principais lançamentos da temporada.

Entretanto, passada a euforia da estreia, o que se vê hoje é que nenhum dos programas conseguiu refrescar a situação da emissora. Os primeiros lançamentos marcaram o retorno de Amaury Jr ao canal que o consagrou e a contratação barulhenta de Catia Fonseca, que vinha há anos fazendo um bom trabalho nas tardes da Gazeta. Suas estreias não são propriamente campeãs de audiência, mas, dentre os lançamentos, são os que têm os resultados menos ruins. Amaury nunca foi sinônimo de Ibope, então é pouco provável que a emissora esperasse mais dele.

 E Catia ocupa um novo horário numa emissora sem tradição em femininos, além de ter apostado num formato bem antigo para os padrões atuais da TV aberta. Mas ela trouxe faturamento e seu Melhor da Tarde já vem sofrendo alterações para tentar atrair mais público. Nos últimos dias, o que se viu foi a diminuição dos colaboradores de pautas diversas do programa e o aumento do espaço do quadro Roda dos Famosos, uma variação da Roda da Fofoca do A Tarde É Sua, da RedeTV. Se vai funcionar ou não, só o tempo dirá, mas o programa está tentando melhorar com as armas que tem.

Situação pior é o do Superpoderosas. O matinal comandado por Natália Leite foi uma aposta ousada da Band, que optou por produzir um feminino com um formato diferente do que normalmente se faz, focando mais na informação de qualidade voltada à mulher contemporânea, em detrimento das culinárias e artesanatos dos similares. Ou seja, a Band fugiu da tentação de fazer um Melhor da Tarde matinal, o que já é uma coisa boa. Entretanto, a emissora pecou por segmentar demais o público-alvo do Superpoderosas, que é voltado a um recorte pequeno da gama de espectador. Ou seja, não é um programa popular. Para angariar mais público, Superpoderosas terá que abrir o leque de assuntos tratados, bem como a maneira de tratá-los. Natália Leite é ótima, e o programa não é ruim, mas seu alcance, infelizmente, é limitado.

No final de semana, a coisa também não está indo bem. A Band promoveu uma reformulação total de seus domingos, entregando a José Luiz Datena e Milton Neves dois novos programas de auditório. E o Agora É com Datena estreou com o mesmo problema do Melhor da Tarde: é um programa novo com cara de velho. No passado, os programas de auditório mais tradicionais eram enormes e ocupavam seu espaço com musicais a rodo e outros quadros variados. Isso não existe mais. Os novos programas de auditório se mantêm com uma edição clipada e muitas atrações fora do palco, com externas e até reality shows.

Pois Agora É com Datena ignorou isso ao oferecer um programa de auditório de seis longas horas e muita conversa jogada fora no palco com Datena e seus convidados. Com isso, o programa pareceu extremamente cansativo. A atração de Datena só ganha fôlego quando entra no ar o quadro A Fuga, um game show que encerra a atração. A diferença no tom é tão grande que parecem dois programas diferentes.

E o Show do Esporte não fica atrás. Aliás, a atração de Milton Neves pode ser considerada o maior erro dentre os últimos lançamentos da Band. Isso porque a emissora abriu mão do bem-sucedido Terceiro Tempo, que registrava ótima audiência e promovia um debate esportivo que agradava os fãs do gênero, para apostar num híbrido de esportivo e auditório que parece atirar para todos os lados, mas acaba não acertando ninguém. Show do Esporte é quase um programa “Frankenstein”, que faz uma colagem dos maiores clichês dos auditórios dominicais, mas com o verniz do esporte. Assim, é visto como esportivo demais para quem gosta de programas de auditório, e show demais para quem prefere um esportivo. Milton Neves é um baita comunicador, sem dúvidas, mas a Band o está usando errado.

Enquanto isso, Cozinha do Bork segue com a mesma falta de expressão dos últimos 487 programas comandados pelo intocável Daniel Bork. E o Vídeo News não emplaca em razão de sua total falta de investimento: sua intenção é boa, mas falta conteúdo. Assim, no frigir dos ovos, a única apostar certeira da temporada foi a faixa Música na Band, que nada mais é que a exibição de shows prontos. Sintomático.

André Santana