Desde que foi anunciada sua chegada, a CNN Brasil começou a
render notícias. Mas não notícias como matéria-prima, e sim notícias sobre si
mesma. Isso porque o canal teve todo o seu processo de implantação amplamente
repercutido pela imprensa especializada, e também pelas redes sociais da
emissora, que anunciavam cada passo dado. Das grandes contratações ao anúncio
de seus programas, tudo o que acontecia nos bastidores da ainda inexistente CNN
Brasil repercutia.
Isso rendeu muitas expectativas e, claro, muitas
desconfianças. Afinal, a emissora não economizou e atraiu para seus quadros
nomes muito conhecidos do telejornalismo nacional. De Evaristo Costa a William
Waack, primeiros nomes anunciados, a emissora arrematou ainda Reinaldo Gottino
(que acaba de sair), Phelipe Siani, Mari Palma, Cassius Zeilmann, Luciana
Barreto, Daniela Lima, Carol Nogueira e Monalisa Perrone, entre tantos outros.
Ou seja, com tantas figuras conhecidas, o processo de montagem do canal se
tornou praticamente um reality show, onde o público acompanhava os passos dos
jornalistas que tanto conheciam, e que migravam para este novo canal.
Em meado de março, com meses de atraso, a CNN Brasil entrou
no ar. E já estreou com um grande desafio pela frente. Afinal, o canal entrou
em cena na mesma semana em que a Organização Mundial de Saúde declarou a
pandemia de coronavírus. Era o início da quarentena e de um trabalho árduo para
o jornalismo brasileiro, como um todo. Com estúdios fechados, os canais de TV
se viram praticamente sem produção de entretenimento, e o jornalismo,
naturalmente, se tornou o protagonista. Assim, os canais de notícia ganharam
mais visibilidade. E isso rendeu pontos positivos e negativos para o canal.
O ponto positivo foi o fato de a CNN Brasil ter se
abastecido de âncoras com ampla experiência em coberturas ao vivo. Reinaldo
Gottino, com dois jornais diários, e Monalisa Perrone, além de vários outros
companheiros, se mostraram preparados para a constante atualização de
informações que a pandemia provocava (e ainda provoca). Porém, o lado negativo
deste contexto é que a CNN não conseguiu estrear reforçando as diferentes
propostas de seus programas. O Live CNN,
por exemplo, nasceu com a proposta de ser um noticioso jovem e muito calcado
nas redes sociais. Mas a cobertura da pandemia fez com que ele se mostrasse
como um jornal tradicional. E todos os outros jornais também se dedicaram a
esta cobertura (acertadamente), o que fez com que eles se tornassem todos parecidos
uns com os outros. Ou seja, a proposta de cada jornal ter um foco e uma
identidade ainda não foi totalmente reforçada ao público da emissora.
Além disso, a pandemia e a crise política brasileira que se
instalou logo depois também não permitiram a CNN Brasil mostrar outras
novidades preparadas, como o CNN Séries
Originais, de Evaristo Costa. Anunciado desde a estreia, o programa acabou
suspenso para dar espaço ao Breaking News,
com as atualizações das informações da pandemia (e da crise política) no fim de
semana. Com isso, a primeira estrela anunciada pelo canal foi vista pelo
público apenas na estreia. Evaristo vai estrear só agora, dois meses depois do
previsto. CNN Séries Originais
estreia neste domingo, 31, às 19h.
E se a agitação nos bastidores ditou os rumos da
“pré-estreia” da CNN Brasil, ela seguiu intensa com a emissora no ar. O canal
mostrou que nenhum âncora é intocável, e segue promovendo constantes trocas e
danças de cadeiras em seus jornais. Neste contexto, a emissora alçou dois novos
nomes: Elisa Weeck, inicialmente contratada para comandar boletins, foi
efetivada no CNN Novo Dia; e Caio
Junqueira, inicialmente nos bastidores, se tornou companheiro de Monalisa
Perrone no Expresso CNN, enquanto
Carol Nogueira passou para o Jornal da
CNN, que tem Waack como titular, mas que atualmente aparece remotamente, já
que faz parte do grupo de risco do covid-19. A saída de Gottino e a chegada de Rafael
Colombo também devem promover novas mudanças.
Tudo isso rendeu à CNN muita atenção desde a estreia. A
emissora viralizou na web com o lançamento do quadro O Grande Debate, inicialmente no CNN Novo Dia e, atualmente, com duas edições, uma no matinal e uma
no Expresso. A ideia do quadro é
debater temas gerais sob os pontos de vista de debatedores com diferentes
opiniões. Apesar de repercutir bastante, o quadro é um dos erros da nova
emissora, já que aposta no “duelo” entre “direita” e “esquerda” de maneira
pouco produtiva. Os debates não fazem ninguém pensar e apenas reforçam as
ideologias já enraizadas no espectador. Tanto que o Noticias da TV revelou que
a versão estadunidense do quadro nem sequer existe mais, pois provocou vários
problemas nos EUA. Aqui, ele colabora perigosamente para a polarização política
cada vez mais violenta do país. É quase um desserviço.
Porém, no geral, o saldo da nova CNN é positivo. A emissora
possui um bom quadro de profissionais e faz um jornalismo quente e bastante
honesto. Havia a desconfiança de que a emissora poderia ser escancaradamente
pró-governo, já que seus sócios são considerados simpatizantes do presidente.
Mas a emissora vem se mostrando bastante equilibrada neste ponto. Ela não é
crítica, como a GloboNews, por exemplo, mas também não se mostra subserviente.
Com isso, ela segue os moldes da matriz americana, que é bastante quadrada,
tanto na forma como no conteúdo. Mas, num momento em que informação de
qualidade nunca foi tão imprescindível, a CNN Brasil veio em boa hora. E os
eventuais erros devem ser reparados com o tempo.
André Santana