sábado, 29 de fevereiro de 2020

Falta de estratégia compromete SBT e Record

"Quem bate o Ratinho aqui sou eu!"

Há anos, a Record busca uma solução para a sua faixa das 22 horas. Depois que suas novelas policiais neste horário perderam força e acabaram substituídas por uma linha de shows, a emissora se viu perdendo a vice-liderança para o Programa do Ratinho, que foi movido da faixa das 21h para às 22h e se deu bem. Ao mesmo tempo, o programa do SBT foi azeitando sua fórmula, apostando em quadros semanais simples, mas que conquistaram o público. Assim, Ratinho voltou a se tornar um apresentador difícil de combater.

Criou-se um problema para a Record. Como conter a escalada do roedor do SBT? Nos últimos anos, a emissora tentou de tudo: o programa Gugu, reality shows, programas de auditório, filmes e séries aos baldes. A emissora, inclusive, tentou atacar com uma proposta semelhante à da concorrência, desenhando o projeto chamado de Show da Noite. A ideia era entregar a faixa das 22 horas, de segunda a sexta, para Geraldo Luís, na época em alta com o sucesso do Domingo Show. A emissora avaliou que um programa fixo diário teria mais vantagem para consolidar o público. Porém, a recusa do apresentador fez o canal abortar o projeto.

Deste modo, a emissora mudou a estratégia e se rendeu aos formatos importados. Neste contexto, o que chamou a atenção foi o alto investimento da Record. Ao apostar em revezamento de formatos, a emissora passou a exibir programas grandiosos, como o Dancing Brasil e o Canta Comigo. Além, claro, de seguir apostando em realities de confinamento, sendo os mais populares o Power Couple e A Fazenda. Programas claramente mais custosos que o Programa do Ratinho. Mas nem mesmo a estrutura suntuosa destes shows fez frente ao prosaico programa de auditório do SBT.

Com este cenário, chegamos ao ano de 2020, quando a Record mudou, mas nem tanto, de estratégia. A emissora moveu alguns de seus talent shows das quartas-feiras para os domingos, o que acontecerá a partir da estreia do The Four, às 18 horas do dia 8 de março. Enquanto isso, a noite de quarta ficou, a princípio, com o Troca de Esposas, um programa interessante e que acaba de estrear um pacote de episódios inéditos. Paralelamente, o SBT exibe reprises do Programa do Ratinho, já que o SBT praticamente fecha entre janeiro e fevereiro, todos os anos.

O que se viu nesta nova situação foi um avanço do Troca de Esposas. O programa de Ticiane Pinheiro já se tornou a maior audiência da linha de shows das quartas-feiras, com números maiores que os vistos por Top Chef, Dancing Brasil e Canta Comigo no ano passado. Além disso, já começa a se colocar na vice-liderança, ameaçando o Programa do Ratinho. Isso pode ter acontecido pelos seguintes motivos: porque o Troca de Esposas é o único reality que não tem similares, nem na Record e nem na concorrência, o que o coloca à frente de outros formatos no quesito apelo; e as reprises do SBT ajudam a afastar o público.

Provavelmente, estes dois motivos ajudam a explicar esta tendência. E o resultado, ao menos até aqui, deixa claro que nem SBT e nem Record são bons de estratégia. Afinal, a Record teria um poder de fogo para iniciar uma linha de shows novinha já no início do ano. E o canal até fez isso, lançando Aeroporto, às segundas, e Em Nome da Justiça, às quintas, além do Troca às quartas. Mas a emissora poderia pensar em programas de mais apelo e lançá-los justamente agora, neste momento frágil do SBT, que abusa das reprises. Porém, o canal prefere esperar março e abril para trazer novidades, justamente quando o Programa do Ratinho já voltou a exibir conteúdo inédito.

E o SBT também é ruim de estratégia. Afinal, como a segunda maior emissora do país consegue achar normal promover uma reprise geral de TODOS os seus programas de variedades? Quem aguenta tantos festivais “melhores momentos”? A sorte do SBT é que a direção da Record não se ligou neste momento de fragilidade para contra-atacar. Porque o momento seria esse.

André Santana

Presença de Luciana Braga é um acerto de "Éramos Seis"

"Eu era Isabel, e agora
quero acabar com ela!"

Um dos inúmeros problemas familiares que ajuda a embranquecer os cabelos de Lola (Gloria Pires), em Éramos Seis, é a história de amor de Isabel (Giulia Buscaccio). A caçula vive um romance com um homem casado, o que vem gerando uma série de conflitos. E o principal deles é a presença de Zulmira, a mulher de Felício (Paulo Rocha). A nova personagem, que veio para dificultar a vida do casal, é vivida por Luciana Braga, atriz que viveu Isabel na versão do SBT da história. Mais do que uma homenagem, a presença de Luciana é um retorno em grande estilo à Globo desta excelente atriz.

Como Zulmira, a mulher que se recusa a dar o desquite a Felício e não dá folga para Isabel e Lola, Luciana Braga mostra o seu talento. A atriz é ótima vivendo megeras, e desta vez não é diferente. Basta lembrar que seu último trabalho na Globo foi justamente vivendo uma deliciosa megera, a Denise, invejosa vilã de Negócio da China, de 2008. Infelizmente, poucos viram a novela de Miguel Falabella, mas Luciana Braga esteve excepcional na obra. Foi um dos destaques do elenco desta produção, que ficou mais marcada por percalços e baixa audiência.

Depois disso, Luciana Braga se transferiu para a Record TV, onde também fez trabalhos marcantes, como nas novelas Poder Paralelo (2009) e Vidas em Jogo (2011). Porém, seu retorno à Globo chega com um sabor especial. Afinal, ao viver em Éramos Seis a rival de sua própria personagem na versão anterior, Luciana Braga ajuda a engrandecer a novela de Angela Chaves. É uma reverência à novela do SBT, que foi marcada pelo excelente elenco. E uma reverência à própria atriz, que é dona de uma trajetória repleta de bons serviços prestados.

A chegada de Zulmira também ajuda a agitar a reta final de Éramos Seis. A trama, que foi desenvolvida praticamente sem grandes vilões, tem se servido de tipos mais malvados para garantir a ação de seu desfecho. Assim, enquanto Shirley segue armando para separar Lola de Afonso, Zulmira se junta ao time das ex-mulheres inconformadas para prejudicar Isabel.

O amor proibido de Isabel e Felício injetou novas possibilidades à Éramos Seis. Assim, a novela se aproxima de seu desfecho com mais ação, mas sem perder de vista sua proposta de crônica da vida. Isso reafirma o poder magnético do romance de Maria José Dupret.

André Santana

Carnaval na TV muda e não sai do lugar

"O carnaval da família brasileira!"

Mais uma vez, o Carnaval dominou a programação das principais emissoras abertas do Brasil. Globo, SBT, Band e RedeTV apostaram, mais uma vez, em suas transmissões de diferentes festas da folia de Momo. No entanto, Globo, SBT e Band mostram dificuldades em sair da previsibilidade. A surpresa, então, ficou com a RedeTV, que fez uma boa reformulação de seu Bastidores do Carnaval.

Capitaneada por Leo Dias, a mudança no Bastidores do Carnaval da RedeTV veio bem a calhar. O novo mandachuva do TV Fama optou por valorizar a festa, as celebridades e os personagens que fazem a folia acontecer. Ou seja, a emissora abriu mão das bizarrices e dos excessos que caracterizaram o Bastidores do Carnaval desde a sua criação. A transmissão ainda teve direto à presença do próprio Leo Dias no estúdio, Nelson Rubens nos locais da festa, e reforços, como Simony e Gretchen.

Muitos reclamaram que perdeu a graça. Mas convenhamos: as bizarrices do Bastidores do Carnaval já haviam deixado de ter graça há tempos. Os excessos eram tão comuns e banalizados, que já não despertavam mais interesse. Claro que a RedeTV ainda precisa encontrar meios de tornar sua cobertura dos bastidores da festa menos enfadonha. Mas apostar em mais informação e humor pareceu uma saída mais sensata. O saldo foi positivo, apesar dos pesares.

Enquanto isso, os demais canais não trouxeram nada de novo em suas transmissões. A Globo, como sempre, mostrou os desfiles das escolas de samba de São Paulo e do Rio de Janeiro. A única novidade foi a presença de Michelle Barros, que mostrou traquejo na condução dos desfiles da capital paulista, ao lado de Chico Pinheiro. No mais, a emissora segue com dificuldades em injetar informação na festa, preferindo uma narração superficial.

Já SBT e Band apostam, principalmente, no carnaval da Bahia. E, como sempre, a passagem dos trios elétricos não funciona como espetáculo televisivo. No fim, as transmissões destes canais servem mais para constar do que qualquer outra coisa. Tanto que o SBT já jogou a toalha, restringindo suas transmissões a horários periféricos, e sempre com pouco espaço. Em suma, nada de novo no reino de Momo.

André Santana

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Com "Alerta Nacional", RedeTV dá vários passos para trás

"Já fumou sua maconha hoje?"

Alerta Nacional é, até aqui, a grande aposta da RedeTV para 2020. No ar há quase um mês, o “jornal” policial só teve um único mérito até aqui: mostrar para todo o Brasil a grande inspiração de Jorge Bevilacqua (Welder Rodrigues), o afetado (e divertido) apresentador do Jardim Urgente, quadro do Tá no Ar, da Globo. Sikera Jr. e o personagem se confundem, tamanha a semelhança. É de um jeito atabalhoado e falastrão que o apresentador comanda um jornal policial, resultando numa estranha mistura entre violência e humor.

Alerta Nacional é a versão para todo o país do Alerta Amazonas, atração que Sikera comanda, com sucesso, em Manaus (AM). É um tipo de formato que encontra muita força em emissoras regionais, já que leva para a tela situações e personagens próximos de quem os assiste. No entanto, parece um formato ultrapassado em um programa de proporções nacionais. Um apresentador que exibe matérias policiais e profere discursos demagogos não rende mais atenção como um dia já rendeu.

Alerta Nacional bebe da fonte do Cadeia, de Alborghetti, uma referência no segmento. Depois dele, foi Ratinho quem deu continuidade ao formato, no lendário 190 Urgente. José Luiz Datena é outro “herdeiro” do ramo, imprimindo este estilo ao Cidade Alerta, da Record e, posteriormente, ao Brasil Urgente, da Band. A própria RedeTV já teve um similar, Repórter Cidadão, que foi apresentado pelo próprio Datena, além de Marcelo Rezende.

Porém, Sikera Jr. representa o que há de pior neste formato. É como se a RedeTV desse vários passos para trás, ao trazer de volta um estilo narrativo que parecia morto e enterrado, ao menos em emissoras de rede nacional. Sikera trata as notícias policiais com um humor que não cabe, repetindo velhas máximas conservadoras que amplificam comentários preconceituosos. Ou seja, ao mesmo tempo em que o apresentador defende a polícia cegamente, defende que “bandido bom é bandido morto” e julga e condena qualquer pessoa baseado apenas no que vê nas matérias, ele também faz piadinhas de cunho sexista, machista e homofóbico. Isso sem falar na insistência em falar que tudo é “maconha”, num discurso que evidencia a sua total ignorância. Porém, trata-se de um discurso que parece bastante alinhado ao atual governo, o que explica o seu espaço nacionalmente pela RedeTV.

Porém, a história mostra que se trata de um formato de vida curta. Os programas remanescentes do segmento, Cidade Alerta e Brasil Urgente, tiveram que se adaptar para sobreviverem. Hoje, o Cidade Alerta se mantém graças aos casos policiais que acompanha, que transformaram o programa numa “novelinha” (e que também rende momentos controversos, como no caso exibido nesta semana, no qual uma mãe soube da morte de sua filha no ar, ao vivo. Lamentável...). Já o Brasil Urgente se pauta na prestação de serviço, com assuntos que interessam aos moradores de São Paulo e garantem a audiência da capital paulista.

Neste contexto, Alerta Nacional tenta resgatar o “espírito” de Alborghetti e companhia. Porém, Sikera Jr não tem um décimo do carisma do pioneiro e seus seguidores mais famosos. Ele só chama alguma atenção justamente pelos seus gracejos no estilo “tiozão do pavê”, com micagens feitas para repercutir nas redes sociais. Algo que pode até funcionar inicialmente, afinal, não deixa de ser uma novidade inusitada. Porém, a tendência é que o estilo vá perdendo força. No momento, Alerta Nacional aumentou a audiência em seu horário de exibição, o que era até previsível, afinal, ele sucedeu o inexpressivo Tricotando. Mas não deve ir muito além disso. Basta lembrar do Denúncia Urgente, do “Eddie Zap”, que começou bem, mas logo perdeu fôlego. Alerta Nacional tem um formato com data de validade. Felizmente.

André Santana

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Um dos principais programas da RedeTV, "A Tarde É Sua" vive crise, diz site

"É roda da fofoca ou roleta russa?"

A Tarde É Sua sempre foi um programa de destaque da RedeTV. O programa de Sonia Abrão está no ar há 14 anos, sempre registrando bons índices de audiência para os padrões da emissora. Se considerarmos que a atração é “ensanduichada” por duas faixas vendidas para igrejas, A Tarde É Sua pode ser considerado um fenômeno. Afinal, pegar do traço e fazer o programa se tornar a maior audiência diária da RedeTV é um feito e tanto.

Mas o programa não escapou de uma crise que pode ter sérias consequências. Há alguns dias, os bastidores do programa de fofocas se tornaram a própria fofoca, pautando os sites especializados. Uma reunião falando sobre os atrasos nos pagamentos dos profissionais envolvidos cujo conteúdo foi vazado, seguido por uma briga pública entre dois colaboradores da atração, levaram o A Tarde É Sua ao olho do furacão. Com isso, apesar da estabilidade no Ibope, o programa pode ter seu futuro ameaçado, informou o site Notícias da TV.

Segundo matéria de Daniel Castro, a RedeTV pode estar considerando tirar o programa do ar. Isso porque a atração, feita em sociedade com a produtora Câmera 5, não rende tanto faturamento à emissora. Na matéria, o NTV comparou os rendimentos do A Tarde É Sua com o Tricotando, e afirmou que o programa de Lígia Mendes e Franklin David é muito mais rentável comercialmente. Faz sentido, afinal, o Tricotando sobreviveu às mudanças na grade de programação que o ameaçou de uma extinção. Não dançou porque fatura, embora a audiência não seja lá essas coisas.

Isso posto, Daniel Castro noticiou que a direção da RedeTV considera substituir o A Tarde É Sua pelo Tricotando. Castro também afirmou que Leo Dias poderia criar um novo programa de fofocas para a tarde da emissora. Seria uma reviravolta e tanto, tendo em vista que Leo Dias e Elias Abrão, diretor do A Tarde É Sua, são desafetos declarados. Porém, a Câmera 5 divulgou nota afirmando que tais informações não procedem, e a parceria com a RedeTV continua.

É bem difícil imaginar as tardes da RedeTV sem Sonia Abrão, que está estável ali há tantos anos. Por outro lado, sempre pareceu estranho Sonia não ter mais despertado o interesse de outras emissoras, dado o seu potencial de audiência (se na RedeTV, em meio a igrejas, o programa pontua bem, imagina num canal de maior teto de público?). Seria essa a deixa para Sonia trocar de canal? Vale lembrar que seu Sonia e Você, que a jornalista comandou na Record entre 2004 e 2006, pontuava bem. Ela voltaria para lá? Ou iria para outro canal? Ou deixaria os programas diários, se aposentando depois de 20 anos ininterruptos de vespertinos? Aguardemos os próximos capítulos.

André Santana

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Silvia Abravanel perde a linha e estraga "Bom Dia & Cia"

Como disse o amigo Fabio Garcia:
"até o boneco ficou constrangido!"
Muito se falou sobre o comportamento de Silvia Abravanel na manhã de ontem, 19. A apresentadora usou seu espaço no Bom Dia & Cia para responder a um site de fofocas, que a acusou de ter faltado ao trabalho sem avisar sua equipe na última segunda, 17. Para responder, ela reuniu alguns funcionários da produção da atração e os perguntou se ela havia ou não avisado de sua ausência. Foi um momento bastante constrangedor.

Muitos sites falara sobre o assunto. As redes sociais, claro, também criticaram Silvia duramente. No ar, ficou parecendo que a apresentadora praticou assédio moral, ao expor e constranger sua equipe. A própria Silvia se defendeu, dizendo que sua equipe é bastante unida, e é normal que eles brinquem uns com os outros. Sob sua ótica, não houve constrangimento. E vida que segue.

Obviamente, assédio moral é algo grave. E a equipe do Bom Dia & Cia, caso se sentisse mesmo coagida, não teria forças para assumir isso, afinal, a apresentadora é a filha do dono do SBT. No entanto, vamos considerar que a justificativa de Silvia tenha algum fundamento. A equipe estava à vontade e não se sentiu constrangida. Ok. Mesmo assim, a postura da apresentadora está errada. E pouco se falou sobre um ponto muito importante desta situação: ela está à frente de um programa infantil!

Quando Fausto Silvia reclama no ar de sua produção, o público dá risada. Quando Ratinho manda tudo às favas, a plateia acha engraçado. Mas o público deles é diferente. Silvia fala diretamente à criança. Criança esta que está interessada, principalmente, em assistir os seus desenhos em paz. Claro, há aquelas que podem gostar da Silvia e sonham em entrar ao vivo para ganhar os prêmios do programa. Ainda assim, são crianças. Que não estão interessadas em saber de fofocas de bastidores, se Silvia é querida ou não, ou se ela avisou que faltaria ou não.

Silvia pode se defender, caso tenha sido acusada injustamente. É um direito dela. Mas deveria usar suas redes sociais para isso, ou emitir uma nota via assessoria de imprensa. Usar seu espaço ao vivo dentro de um programa assistido por crianças é o lugar mais inadequado para se dar uma resposta neste sentido. É uma grosseria junto ao público da atração, que tem uma história de quase 30 anos. Uma pena que o pequeno espectador, já tão carente de boas opções na TV, tenha que se submeter a esta situação tão surreal.

André Santana

sábado, 15 de fevereiro de 2020

"Fora de Hora" melhora, mas tem cara de figurinha repetida

"Boa noite!"

Fora de Hora, novo humorístico da Globo, estreou há um mês sem causar boa impressão. O programa que imita um telejornal perdeu muito tempo brincando com as particularidades do formato, reproduzindo piadas batidas e pouco eficientes. Na estreia, só se salvou parte do texto lido pelos apresentadores, Paulo Vieira e Renata Gaspar, quando fizeram comentários ácidos sobre as notícias da atualidade.

No mais, foi tudo uma grande brincadeira com a postura de apresentadores e repórteres. Foram feitas piadas com repórteres perdidos, que não têm muito a dizer, aqueles que aumentam uma situação claramente simples apenas para parecer relevante... Coisas que vemos normalmente nos noticiosos, e que até nos divertem. Mas é isso. O programa apenas reproduziu pérolas do telejornalismo que costumam se tornar memes na “vida real”.

Talvez a própria redação do programa tenha percebido isso e, aos poucos, o Fora de Hora foi trazendo novidades nas semanas seguintes. O que se viu nos segundo, terceiro e quarto episódios foi um aumento considerável de menções à atualidade, com sátiras muito mais inspiradas. Neste contexto, um novo “personagem” despontou como destaque da atração: o ministro Sérgio Moro de Marcelo Adnet. Com uma imitação irretocável, o humorista fez rir numa entrevista no qual Moro apenas respondeu a perguntas irrelevantes, como a opinião dele sobre Amor de Mãe e BBB. Na semana passada, Moro retornou como comentarista do Oscar. Bingo!

O quarto episódio também teve uma divertida esquete com Luciana Paes, vivendo a ministra Damares. A sátira levou a personagem a se tornar MC Damares e protagonizar um clipe de funk, no qual defendia (ou não) a abstinência sexual. Num contexto político repleto de absurdos que mais parecem piada, o humor tem um prato cheio para mostrar, sem filtros, o ridículo da realidade. Este tipo de sátira, somado aos comentários dos apresentadores em quadros como Notícias Tristes da Semana, fazem Fora de Hora ganhar substância. Esse é o caminho.

No entanto, por mais qualidades que o Fora de Hora tenha ganhado ao longo do primeiro mês, não se pode deixar de mencionar que o humor da Globo está tomando um rumo questionável. O que se viu nos últimos anos, sobretudo a partir do lançamento do Tá no Ar, foi que os humorísticos do canal estão ficando todos meio parecidos. Não há dúvidas de que o Tá no Ar foi um divisor de águas, e com todos os méritos, já que era mesmo um programa muito bom. Mas o canal deveria agir no sentido de marcar mais as diferenças entre os programas de humor. Tá no Ar, Zorra e Fora de Hora têm mais semelhanças que diferenças.

Aliás, só o fato de o Fora de Hora imitar o formato de um jornal já o coloca numa prateleira muito próxima ao do Tá no Ar. Enquanto o extinto programa brincava com todos os formatos televisivos, o Fora de Hora brinca com apenas um, o telejornal, mas explora todas as suas variações (afinal, há jornais e jornais). Ou seja, na prática, as propostas são muito semelhantes. O fato de o elenco dos dois programas repetir diversos nomes ajuda a aumentar a sensação de que o Fora de Hora é uma espécie de Tá no Ar “disfarçado”.

Justamente por isso, Fora de Hora não deve se tornar um programa marcante como o Tá no Ar. As comparações serão sempre inevitáveis, e o “jornal” sai perdendo ao ser colocado lado a lado com as emissoras malucas de Adnet e Marcius Melhem. A intenção do atual núcleo de humor é boa: fazer do humor do canal mais relevante e se colocar como instrumento de reflexão. Porém, mais cuidado para fugir da repetição não seria de todo ruim. Fora de Hora está melhorando, deve divertir mais até o fim da temporada, mas não deve se tornar mais um clássico, como Tá no Ar se tornou.

André Santana

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Reprise de humorísticos nos sábados da Globo já cansou

"Além de domingo,
agora tem aula no sábado!"

Desde 2015, a Globo reserva parte de sua tarde de sábado para reprises de programas de humor. O “Vale a Pena Ver de Novo de humorísticos”, chamado de Sessão Comédia, foi inaugurado com o repeteco de Os Caras de Pau. Depois, o canal tirou de seus arquivos o clássico Sai de Baixo, que foi tão bem-sucedido que transformou a faixa num horário nacional (antes, a reprise era exibida apenas por algumas emissoras da Rede Globo). E, desde o final do ano passado, é a nova Escolinha do Professor Raimundo que ocupa a vaga. Toma Lá Dá Cá deve ser a próxima atração.

Reprises de programas de humor, normalmente, são bem aceitas pelo público. Está aí Chaves, reprisado à exaustão desde a década de 1980, que não nos deixa mentir. Na Globo, além dos programas de sábado, o recurso também foi usado na grade diária, quando o Vídeo Show saiu do ar. A reprise O Álbum da Grande Família registrou ótimos índices de audiência entre janeiro e outubro do ano passado, com resultados de fazer inveja ao Se Joga.

Porém, apesar da boa audiência, é sempre inevitável pensar que as tardes de sábado mereciam conteúdo inédito. Afinal, o sábado à tarde já é uma faixa de programação com parcas opções para os espectadores da TV aberta. Com exceção do SBT e seu Programa da Maisa (que, apesar das atuais reprises e da fórmula ter cansado um pouco, ainda é uma boa opção), não há, no início da tarde, nada muito interessante para se ver. Band e Record não produzem nada para o horário. RedeTV, muito menos.

Aí, quando se liga na Globo, está lá uma reprise de um programa que nem sequer despertou saudade. Sim, porque a nova Escolinha do Professor Raimundo ainda está em produção, e deve ter nova temporada em 2020. Não há motivos para uma reprise tão precoce. A expectativa é que Toma Lá Dá Cá ocupe o espaço em algumas semanas. Um programa divertido também, claro, mas já está em cartaz no Viva. A verdade é que conteúdo de arquivo cairia muito melhor como uma opção para o Globoplay do que um espaço cativo num horário importante da grade.

Falta à Globo um pouco de ousadia neste espaço. Num passado remoto, a emissora apostava no trio Angélica, Xuxa e Luciano Huck à tarde toda. Estrelas ia ao ar depois do Jornal Hoje, seguido do TV Xuxa, e o Caldeirão do Huck encerrava. Hoje, há uma reprise, seguido de um SóTocaTop (que já deu o que tinha que dar há tempos). É um horário que poderia, perfeitamente, ser ocupado por algo mais variado, inédito e interessante.

André Santana

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Contrariando expectativas, Globo acerta com "BBB 20"

"Tá melhor que o playstation!"
Desde o final do ano passado, corriam boatos de que a Globo estava convidado digital influencers para participar do Big Brother Brasil. Aí, não faltaram críticas. Afinal, o diagnóstico do fracasso do BBB 19 apontava justamente a falta de participantes realmente interessados em se expor. O que se viu no ano passado foram pessoas evitando polêmicas, na tentativa de conquistarem seguidores e se tornarem influencers. Ou seja, se aspirantes a influencer já minaram a dinâmica, imagina o que aconteceria com influencers de verdade, que teriam muito a perder? Eles se deixariam expor, correndo o risco de perderem seus seguidores?

Entretanto, até aqui, a coisa tem acontecido. O BBB 20 estreou com influencers, sim, mas também outros tipos de “famoso”, como o ator Babu Santana e o surfista Lucas Chumbo. Eles, ao lado de gente famosa no YouTube e no Instagram, como Pyong Lee e Bianca Boca Rosa, formaram o time “camarote”, ou seja, o lado dos convidados do BBB. Do outro lado, seguiram os participantes “tradicionais”, que passaram pela peneira da atração, chamados de “pipoca”. Os times entraram em cena separados por um muro e não concorreram um com o outro na primeira semana, numa tentativa de nivelar o, digamos, “grau de fama”, dos participantes.

E assim, a estranha mistura que tinha tudo para dar errado, surpreendentemente deu certo! O time vem rendendo situações que fizeram o BBB 20 empolgar logo de cara. A união de homens da casa, num time formado por Petrix, Hadson, Lucas, Felipe e Guilherme, fez com que planos mirabolantes fossem armados, como se não existissem câmeras na casa. Bolaram de fazer um teste de fidelidade, na tentativa de “queimar” as moças comprometidas junto ao público. Erraram feio. O time ganhou a antipatia do público, que respondeu eliminando Petrix com votação expressiva já no segundo paredão.

A descoberta do plano fez a casa se dividir. De um lado, as mulheres e seus simpatizantes, liderados pela sensata Marcela. Do outro, um time de machistas que passou a negar que este plano existiu. Isso despertou a dúvida de muitos lá dentro. Mas o time não contava que mais dois participantes, da casa de vidro, entrariam na casa e trariam mais informação de fora, confirmando aos competidores que o público simpatizava com as moças e condenava o plano dos meninos. Ou seja, o BBB traiu uma de suas regras, o de não utilizar informação de fora, para fazer a casa ficar ainda mais agitada. Ou, como Tiago Leifert gosta de dizer, de jogar “fogo no parquinho”.

O sucesso do BBB 20 até aqui tem a ver com o que este blog sempre diz: é um bom elenco que faz o sucesso de um reality de confinamento. E, para isso, não há uma regra muito clara. No ano passado, houve a ideia de misturar conservadores e “liberais”, e eles ficaram amigos, ao invés de brigar. Já neste ano, a mistura deu certo, e a rotina da casa passou a ser narrada como um folhetim, com heróis e vilões digladiando. Porém, como as coisas têm acontecido meio rápido, fica a dúvida sobre até quando esta tensão se sustentará. Mas, por enquanto, a atual edição está mexendo com o público. Funcionou.

O mais interessante é que o BBB tem sabido fazer uma narrativa envolvente baseado em questões muito atuais. Quando os “vilões” fizeram uso de seu machismo para agir, deu-se início a uma discussão bem interessante. O BBB, sempre acusado de ser fútil, conseguiu pautar um bom debate sobre assuntos urgentes, como sexismo, misoginia e assédio, junto aos espectadores. Quem diria, hein?

Vamos ver agora se os conflitos vão durar ou se transformar. Já há uma torcida crescente a favor de Hadson, que vem posando como o arrependido que foi isolado pela casa. Anteriormente apontado como um dos vilões, Hadson pode gerar um plot twist digno de um novelão. Será que as meninas e seus simpatizantes conseguirão manter a união? São questões que mostram que o atual BBB realmente “pegou”.

André Santana

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

História da TV: Quando Leonor Corrêa assumiu, às pressas, o "A Casa É Sua"

"Quarta-feira era dia de banca cheia!"
No início de 2002, a apresentadora e jornalista Sonia Abrão colhia os frutos do bom desempenho do vespertino A Casa É Sua, da RedeTV. Ao trocar os tradicionais quadros de culinária e artesanato dos programas femininos pela leitura de revistas, reportagens e entrevistas, Sonia criaria uma fórmula que seria repetida pelos diversos vespertinos da época. Isso despertou o interesse do SBT, que levou o programa para seus domínios, desfalcando a RedeTV. A emissora, então,  se viu tendo pouquíssimo tempo para reformular o A Casa É Sua, apostando no carisma de Leonor Corrêa para a missão.

Na época, Leonor era mais conhecida por quem acompanhava os bastidores da TV, já que ela atuava como produtora, diretora e redatora de programas importantes, como o Domingão do Faustão, apresentado pelo seu irmão Fausto Silva. Porém, não era uma figura muito conhecida no vídeo, embora tenha tido experiências em frente às câmeras. Seu trabalho como apresentadora mais conhecido, até então, era o Vitrine, tradicional atração da TV Cultura que ela comandou em 1991. Em 1992, teve uma experiência na extinta OM (atual CNT), no comando do Coçando o Sábado.

Eis que, dez anos depois, Leonor voltaria a ter um programa para chamar de seu. E foi tudo às pressas, já que Sonia Abrão era a produtora do A Casa É Sua (gerado pela Câmera 5) e levou toda a estrutura para o SBT, onde lançaria o Falando Francamente pouco tempo depois. Ou seja, a RedeTV teve que montar uma nova equipe e um novo cenário em pouquíssimo tempo para suprir a ausência de Sonia e da Câmera 5. Tanto que, quando entrou no ar, o novo A Casa É Sua tinha um cenário simples e um conteúdo ainda indefinido. Leonor entrou em cena entrevistando convidados, sem ainda um formato lá muito certo.

Porém, logo ela foi se adaptando no sentido de dar sequência ao "legado" de Sonia Abrão. Ela aprendeu a ler revistas no ar, comentar novelas e falar sobre a vida dos famosos. Passou a ter a companhia de Nelson Rubens e do repórter Gustavo Baena como co-apresentadores, dividindo com ela a missão de comentar as notícias do dia. No ar, Leonor ficava à vontade mesmo fazendo piadas, como seu irmão Faustão, e comentando as novelas da Globo. Todos os dias, ela comentava com seus companheiros de cena os desdobramentos de tramas como O Clone (2002) e Mulheres Apaixonadas (2003). Ela sempre repetia o ódio que tinha de Alicinha, a personagem de Cristiana Oliveira que praticava maldades na novela de Gloria Perez.

Mas Leonor não estava totalmente à vontade no A Casa É Sua. Ela expôs suas dificuldades numa entrevista bastante sincera (leia AQUI), concedida quando completou seis meses à frente do programa. “Há coisas que não me deixam à vontade, às vezes não me sinto bem. E isso fica claro no ar. Mas, como profissional, minha função é apresentá-lo da melhor maneira possível. Minha intenção era voltar ao vídeo. Este agora é o meu emprego”, afirmou. Perguntada se ela estava frustrada com a atração, Leonor respondeu francamente. “Não, porque não fui enganada. Quando eu vim para a Rede TV, o programa já existia (...) e eu sabia o que a direção queria dele, qual o perfil que a emissora queria. Tive que me adaptar”, revelou. A expectativa da apresentadora era conquistar um espaço mais autoral na emissora, algo que nunca aconteceu. “Daqui a um ano, quem sabe, eu emplaco o meu projeto, que teria externas, entrevistas e muito humor. Sou uma pessoa muito bem-humorada e queria mostrar isso para o público”, disse.

Não se sabe exatamente o motivo, mas Leonor Correa e a RedeTV acabaram por rescindir o contrato cerca de um ano e meio depois da estreia desta versão do A Casa É Sua. Provavelmente, emissora e apresentadora chegaram num consenso, já que notas na época diziam que a RedeTV estava insatisfeita com a audiência do programa, ao mesmo tempo em que Leonor não se identificava com a proposta. Assim, em outubro de 2003, Leonor deixou o programa e foi substituída por Clodovil Hernandes, que comandou a fase mais lembrada do vespertino.

Depois disso, Leonor Corrêa voltou aos bastidores, assumindo a direção de programas na Band, como o Boa Noite Brasil e o Band Folia. Voltou ao vídeo em 2005, assumindo o Melhor da Tarde no lugar de Astrid Fontenelle. Mas ficou poucos meses na função, já que o programa saiu do ar em agosto do mesmo ano, dando espaço ao Pra Valer, de Claudete Troiano. Assim, Leonor migrou para a Record, onde dirigiu O Melhor do Brasil. Aí foi pro SBT, onde dirigiu o Eliana e, mais adiante, tornou-se roteirista. Na função, assinou a novela Carinha de Anjo como autora principal, e fez parte dos trabalhos de texto da série Z4. Agora, ela deve assinar a adaptação da novela mexicana Patinho Feio, atração cotada para substituir As Aventuras de Poliana em 2021.

André Santana

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

"Novidade" na Record é reality show

"Esse ano não vai
faltar trabalho pra mim!"
No último domingo, a Record veiculou, no Domingo Espetacular, o seu “chamadão” contando as novidades de 2020 na programação. E o que foi visto foi uma sacolada de reality shows. Diversos formatos importados foram adquiridos para “turbinar” os programas de variedades da rede. Assim, o que não vai faltar no canal são competições, dos mais variados estilos.

Dos programas tradicionais da emissora, dois ganham reforços de realities/games. Um deles é o Hoje Em Dia, que terá como principal aposta Hair – O Reality de Cabelos. Trata-se de uma competição envolvendo cabeleireiros que será apresentado por Ana Hickmann. Já o Hora do Faro também virá com um game suntuoso, que é pretensioso até no nome. Game dos Games é um jogo que ostenta uma mega estrutura, que será gravado em Buenos Aires, na Argentina. Além de fazer parte do dominical de Rodrigo Faro, o quadro terá exibições no canal pago TNT.

Outra aposta da emissora é o Domingo Show com Sabrina Sato, que estreará em 8 de março, antes do Faro. A atração contará com vários quadros, sendo que o carro-chefe será Made in Japão. Este também terá uma estrutura bem grandiosa para mostrar famosos confinados e competindo em provas que fazem referência à cultura oriental. Dhomini, campeão do BBB 3 (e que namorou Sabrina no confinamento), e Silvana Oliveira, mãe da cantora Ludmilla, são alguns dos participantes da atração.

Além de quadros, os realities/games/talent shows também seguem como programas de grade. A principal novidade será A Ilha, formato que a emissora anuncia como criação própria. Segundo o Notícias da TV, a atração vai confinar famosos numa ilha, e eles terão que passar por provas. Ou seja, um A Fazenda na ilha. Aliás, cabe registrar a falta de imaginação da Record no batismo destes realities: A Fazenda, A Casa, A Ilha… se um dia resolverem fazer um reality no banheiro, será O Banheiro? Sorte do Top Chef, que escapou de se chamar A Cozinha!

Por fim, outra novidade será Canta Comigo Teen, uma versão do Canta Comigo para crianças e adolescentes. No mais, mais Top Chef, mais Dancing Brasil e mais The Four, além de Power Couple, Troca de Esposas, A Fazenda e o Canta Comigo tradicional. Vale lembrar que a emissora ainda não definiu quem apresentará Canta Comigo, Canta Comigo Teen, A Ilha e Power Couple. Tá bom de reality ou tá pouco?

André Santana

sábado, 1 de fevereiro de 2020

"Salve-se Quem Puder" devolve pastelão infantil ao horário das sete

CORRAO!

Daniel Ortiz foi um dos principais lançamentos da Globo no horário das sete dos últimos anos. O autor emplaca sua terceira obra na faixa deixando claro que tem estilo. Mesmo tendo desenvolvido ideias que não eram necessariamente sua em suas tramas anteriores (Alto Astral foi baseado em sinopse de Andrea Maltarolli e Haja Coração era um remake reinventado de Sassaricando), o autor deixou uma impressão digital muito forte, e que vai ao encontro do que o público do horário espera. Tal estilo pode ser constatado em Salve-se Quem Puder, sua nova incursão na faixa e sua primeira obra 100% original.

Na nova novela, a ordem é carregar nas tintas. Ortiz é dono de um texto direto, sem muita sutileza, e com um humor ingênuo e quase infantil. Trata-se de uma fórmula que funciona muito bem no horário, tendo em vista que a faixa abrigou vários sucessos que bebiam desta fonte. Além das novelas anteriores do autor, o estilo também foi visto recentemente em Pega Pega, de Claudia Souto, também adepta da fórmula. Além, claro, das novelas das sete de Walcyr Carrasco, como Caras & Bocas e Morde & Assopra, que foram grandes sucessos do horário na década passada.

Salve-se Quem Puder estreou com jeitão de superprodução. Para unir as três protagonistas da obra, Luna (Juliana Paiva), Alexia (Deborah Secco) e Kyra (Vitória Strada), a trama já começou com um furacão em Cancun, no México (e a emissora volta a produzir início de novelas fora do país, prática que andava abandonada... a retomada, então, mostra que o canal aposta alto na história). Sem dúvidas, foi uma sequência muito bem produzida e cheia de emoção e reviravoltas. As três jovens se conhecem num hotel do lugar, testemunham o assassinato de um importante juiz e se veem tendo que fugir da perseguição da grande vilã Dominique (Guilhermina Guinle).

Porém, para apresentar suas protagonistas e sua história, o autor não deu margem a sutilezas e nem dúvidas. Sobretudo na apresentação de Alexia e Kyra, duas heroínas puxadas para o humor, o tom “over” impregnou as cenas. Assim, Alexia foi vista como uma “devoradora”. Já Kyra apareceu tão atrapalhada que passou do ponto. Apenas Luna teve uma apresentação menos carregada nas tintas. O que deixou claro que é ela a heroína romântica do enredo. Ou seja, Ortiz aposta no pastelão, ressaltado pelo tom teatral das interpretações e da direção de Fred Mayrink, um “pupilo” de Jorge Fernando.

Salve-se Quem Puder tem uma boa premissa em mãos. Na história, depois de testemunharem um assassinato, as três heroínas serão incluídas num programa de proteção à testemunha e são obrigadas a abandonarem suas vidas. Elas, então, mudam de identidade e vão morar numa fazenda. Ali, deverão passar por uma série de situações cômicas, tentando se adaptar a uma nova realidade, até que decidirão retornar às vidas anteriores. É uma premissa que tem boas possibilidades de comédia, que é o que busca o autor. E, vale constar, ela lembra bastante Pé na Jaca (2006), trama de Carlos Lombardi na qual o personagem de Murilo Benício, Arthur Fortuna, se vê falido e é obrigado a trocar sua vida urbana por uma fazenda caindo aos pedaços no interior de São Paulo.

Aliás, em entrevistas, Daniel Ortiz definiu sua trama como um resgate da novela das sete clássica. Bebendo da fonte de nomes como Cassiano Gabus Mendes, Carlos Lombardi e Silvio de Abreu, de quem é discípulo, o novelista prometeu uma trama recheada de ação e comédia. Porém, no que foi visto até aqui, sua novela está mais para Walcyr Carrasco, novelista conhecido pelo excesso de didatismo, do que de suas demais “inspirações”. Afinal, os outros autores também apostavam no pastelão, mas vinham com uma comédia um tanto mais sofisticada. Já Salve-se Quem Puder aposta numa trama mais simples, repetindo os principais clichês do gênero.

Porém, o grande acerto de Salve-se Quem Puder, que pode fazer a novela render, é seu elenco bem escalado. Deborah Secco, experiente, dá credibilidade a uma personagem que poderia cair no ridículo. Já Vitória Strada mostrou um surpreendente timing cômico. Ela dá graciosidade à Kyra. Enquanto isso, Juliana Paiva emplaca mais uma mocinha, tipo que lhe cai bem. Tudo isso como embalagem de uma trama leve e de fácil digestão. Ou seja, Salve-se Quem Puder tem tudo para agradar a audiência do horário.

André Santana