terça-feira, 11 de agosto de 2020

Usada no "Caldeirão do Huck", plateia virtual foi lançada no "Sociedade Anônima"


Numa tentativa de reinventar o programa de auditório neste período de pandemia, no qual aglomerações devem ser evitadas, alguns programas da TV brasileira lançaram o conceito de “plateia virtual”. Quem começou com esta história foi o SBT, que tratou de espalhar monitores no lugar na plateia em seus programas de auditório com imagens de pessoas reagindo.

Na prática, a plateia virtual do SBT se revelou uma grande bobagem. Programa do Ratinho, Domingo Legal e Programa da Maisa fazem uso do recurso, e melhor seria se não utilizassem. Isso porque as pessoas que aparecem no telão não estão ali em tempo real. São imagens pré-gravadas de reações variadas de espectadores. Que são colocadas no ar sem nenhum critério. Assim, quando acontece algo engraçado no palco da Maisa, os telões mostram pessoas sérias olhando. Ou então, sem nenhum motivo aparente, alguns deles aplaudem. Ou riem quando não é hora. Ou seja, nem ao menos colocam as reações certas na hora certa. O que acontece no palco não dialoga com a reação da plateia, o que gera uma sensação de descompasso.

Aí veio o Caldeirão do Huck, com um conceito de plateia virtual mais bem definido. No programa de Luciano Huck, o espectador assiste, de sua casa, a gravação do programa em tempo real. Deste modo, consegue reagir ao que é dito pelo apresentador, e até mesmo interagir com ele. Assim, Luciano bate-papo com a plateia, lê cartazes exibidos pelo público e consegue manter a sensação de plateia presente, mesmo estando sozinho no palco. Além disso, a plateia virtual participa ativamente do quadro Quem Quer Ser um Milionário?, já que pode ajudar o participante quando é solicitada. Funciona.

Porém, vale lembrar da primeira experiência (ao menos que eu me lembre) de plateia virtual na TV brasileira. Isso aconteceu bem antes de uma pandemia eliminar a plateia presencial dos programas de auditório, mais precisamente em 2001. O programa Sociedade Anônima, apresentado por Cazé Peçanha no final das noites de domingo da Globo, já ostentava uma plateia virtual.

No programa, Cazé tinha uma plateia presencial. Mas havia também uma plateia virtual, que aparecia no telão do cenário, e também em tótens com monitores espalhados no meio da plateia presencial. Era o mesmo recurso utilizado por Luciano Huck atualmente, mas em condições bem mais precárias, já que banda larga era para poucos, e fibra ótica nem existia. Ou seja, a imagem do cidadão na plateia era bem prejudicada, assim como a interação com o apresentador. 

Isso só reforça algo que já foi dito pelo TELE-VISÃO tempos atrás: Sociedade Anônima era um programa de vanguarda, e que estava à frente do seu tempo. Um programa de auditório anárquico, crítico e absurdamente reflexivo e que, de quebra, se mostrou visionário. Uma pena ter sido um fracasso e durado apenas 9 edições. Merecia mais. 

Veja abaixo um trecho do Sociedade Anônima e relembre essa loucura:



André Santana

sábado, 8 de agosto de 2020

"Programa da Maisa" murcha em nova temporada

O Programa da Maisa estreou no ano passado no SBT como uma lufada de novidade nas cansadas tardes de sábado da emissora. Um talk show com uma pegada teen, tendo à frente a esperta Maisa Silva, parecia uma ideia e tanto para um canal que não costuma lançar mão de coisas novas, preferindo recorrer ao seu baú de “velhas novidades”. Entretanto, o que começou bem logo perdeu fôlego. O formato engessado, que pouco explora a espontaneidade de sua apresentadora, cansou.

A ideia de Maisa Silva ter um talk show é ótima! O SBT foi absolutamente feliz com essa proposta. No entanto, a atração caiu fácil na dependência de um roteiro muito amarrado, que não permite muito improviso. Além disso, todo o papo de Maisa com seus convidados é costurado por quadros fixos que logo caíram no lugar-comum. Responder “haters” da internet era divertido no começo, mas logo o quadro Banho de Sabedoria passou a se tornar enfadonho, e até pedante. O Game do Dia também padeceu com jogos que não empolgavam ninguém.

Aí, veio a temporada 2020 com a vontade de trazer algo novo. Mas os primeiros episódios inéditos do ano mostraram pouca coisa verdadeiramente nova. E, depois, veio a pandemia, forçando o programa a recorrer a mais reprises. Ou seja, Programa da Maisa ficou quatro meses sobrevivendo de repetecos, o que ajudou a enfraquecer ainda mais o seu já desgastado formato.

Há algumas semanas, a atração voltou a contar com episódios inéditos. Maisa Silva agora comanda seu programa numa cadeira distante de seus convidados. A apresentadora, assim como a grande maioria dos programas de entrevista atuais, também faz uso de videochamadas para conversar com seus convidados de maneira remota. Além disso, a plateia foi substituída por monitores com imagens de pessoas reagindo.

Pois o novo formato ajudou o programa a perder ainda mais fôlego. As medidas de proteção (necessárias, claro, ninguém aqui as está condenando) expuseram as fragilidades que o programa já tinha. Sem muita mobilidade no palco, e sem a temperatura da plateia, restou ao programa apenas o seu lado “talk”, que segue abastecido por um roteiro fraco. Ou seja, a atração perdeu aqueles quadros cansativos que “interrompiam” o programa, mas a ausência deles deixou claro que não havia muito mais que aquilo. Assim, a edição de uma hora e meia praticamente se arrasta.

É uma pena! Maisa Silva continua sendo uma personalidade da mídia das mais interessantes, e que merece um espaço autoral. No entanto, tem em mãos um programa que nada tem a ver com ela. Chega a ser um desperdício ver em cena uma figura tão ligada às redes sociais no comando de um talk show de execução “jurássica”. Não adianta ter um cenário colorido e objetos infláveis para dar um ar de moderno, se, na prática, não é feito nada de novo ali.

Em tempo de pandemia, há várias experiências remotas sendo feitas, várias delas muito interessantes. O Globoplay, por exemplo, lançou dois formatos 100% remotos, que conversam com o público das lives e das redes sociais, e que funcionam muito bem: Sterblich Não Tem um Talk Show – O Talk Show e Cada um no Seu Quadrado. Ótimas produções, muito divertidas, antenadas com a contemporaneidade e que bebem do formato das lives, mas de uma maneira que funciona também na TV.

Não estou dizendo que Maisa Silva devia partir para o humor. O que estou dizendo é que falta, no SBT, um diretor com uma cabeça mais arrojada, que seja capaz de formatar um programa que converse com este público, que é, também, o público de Maisa. Mais do que nunca, é a hora de aproveitar a boa aceitação da adolescente neste nicho e, ainda, potencializá-lo para algo um tanto mais moderno. A maneira conservadora como o SBT faz televisão está desidratando Maisa Silva, infelizmente.

André Santana

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

"Torre de Babel" no Globoplay é para aplaudir de pé!

Forte, verdadeira, emocionante. Assim a Globo anunciava a estreia de Torre de Babel, em 1998, terceira incursão de Silvio de Abreu no horário mais nobre da emissora. Depois de tentar emplacar uma comédia típica das sete às oito, com Rainha da Sucata, o autor enveredou para a trama policial em A Próxima Vítima e, a partir daí, o thriller seria sua marca como novelista do horário. E Torre de Babel tem importância fundamental nesta história.

Torre de Babel também parte de um mistério. Assim como em A Próxima Vítima, Silvio de Abreu leva o público a bancar o detetive e desvendar um vilão oculto. Sai o assassino em série, entra o responsável por mandar pelos ares o Tropical Tower Shopping, maior empreendimento do empreiteiro César Toledo (Tarcísio Meira). O principal suspeito é José Clementino (Tony Ramos), um homem que passou 20 anos na prisão após matar sua esposa. Especialista em fogos, ele passou esta temporada enclausurado planejando se vingar de César, já que o depoimento do empresário foi determinante em sua pena.

No entanto, quando Clementino sai da prisão, conhece Clara (Maitê Proença), a irmã de criação de Marta (Gloria Menezes), que é esposa de César. Clara tem muitos problemas, que vão sendo revelados ao longo da novela. E, ao encontrar Clementino, também perturbado, se apaixona. Os dois, juntos, aprenderão a lidar com fantasmas do passado e se tornarão pessoas melhores. Por isso, Clementino, que já havia um plano quase completo para explodir o shopping de César, desiste de sua vingança.

Mas os planos de Clementino são roubados, completados e colocados em prática. O Tropical Tower Shopping, que ganhou o apelido de Torre de Babel da imprensa, explode, matando muitas pessoas. Clementino tenta provar sua inocência, mas será perseguido por César. Porém, há vários outros suspeitos pelo crime, já que o passado da família Toledo está cheio de esqueletos no armário. 

Torre de Babel impressionou público e crítica pelo tom duro e violento de seus primeiros capítulos. O primeiro episódio era aberto com Tony Ramos matando uma mulher a golpes de pá, e era encerrado com uma invasão de bandidos armados na mansão dos Toledo, fazendo nada menos que Tarcísio Meira e Gloria Menezes de reféns. A narrativa era crua e a aposta era na tensão psicológica. Afinal, Silvio de Abreu queria que todos os personagens tivessem suas dubiedades, de modo que todos seriam suspeitos pelo crime que movimenta a trama.

Mas não funcionou. O público da novela não comprou as novidades, ficou incomodado com a violência e com o fato de não conseguir identificar mocinhos e vilões. Além disso, houve outros incômodos, como a possibilidade de Marta ter um relacionamento homossexual com Leila (Silvia Pfeifer). Silvio de Abreu revelou que Leila, que formava um par com Rafaela Katz (Christiane Torloni), se aproximaria da matriarca dos Toledo depois que a estilista morresse na explosão do shopping. A ideia era que as duas se tornassem grandes amigas, despertando a curiosidade dos demais sobre aquilo ser apenas amizade ou “algo a mais”. E, claro, abrir a possibilidade de um romance, caso o par fosse bem-aceito.

Por conta disso e de outros imbróglios, Silvio de Abreu mudou a maneira de contar sua história. Usou a explosão do shopping para alterar sua narrativa, apostando mais no melodrama e no folhetim. Definiu romances e vilões, tornando a novela mais apreciada pelo espectador tradicional. Neste contexto, Henrique (Edson Celulari) e Celeste (Letícia Sabatella) se tornaram os principais heróis românticos, abalados por Angela Vidal (Claudia Raia), que virou a grande vilã da novela. Deu certo, e Torre de Babel se tornou um sucesso.

Silvio de Abreu, em entrevistas, sempre se mostrou insatisfeito por se ver obrigado a mudar a maneira de narrar Torre de Babel. O autor dizia que traiu sua ideia original, e que foi um processo bastante exaustivo. Mas é inegável que Abreu foi bastante habilidoso na condução das mudanças da trama. Não foi uma reforma radical, daquelas que desfiguram toda uma obra. Foi uma mudança de tom, na tentativa de deixar a novela menos “diferentona”. 

Mesmo assim, Silvio chegou a acreditar que não teria mais condições de escrever uma nova novela. Felizmente, isso não aconteceu, e Silvio de Abreu escreveu mais duas novelas no horário nobre, sempre com uma evidente pegada policial. Na trama seguinte, Belíssima, ele inverteu sua estratégia de Torre de Babel: apresentou inicialmente uma novela maniqueísta e romântica para, depois, injetar o mistério de sua trama policial. Deu certo, e Belíssima foi bem do início ao fim. Já em Passione, sua trama seguinte, houve nova tentativa de um início menos maniqueísta, que não deu certo. Passione só decolou do meio para o fim, quando o thriller policial se instalou de vez e deixou a história mais vibrante. 

Ou seja, é evidente a importância de Torre de Babel no contexto da obra de Silvio de Abreu no horário mais nobre da Globo. Apesar de A Próxima Vítima ter aberto o caminho, foi Torre de Babel que definiu o rumo dos “crimes no horário nobre”, como se chama a biografia profissional de Abreu, escrita pelo jornalista Raphael Scire. E, justamente por conta desta importância, revê-la no Globoplay é uma enorme satisfação.

Torre de Babel foi a novela que mais mexeu comigo, enquanto espectador. Eu tinha 14 anos, já gostava de novelas, mas o fato de ter no ar uma novela policial, sombria, com toques de violência, me deixou cheio de expectativas. Cada matéria que saía sobre a trama no jornal, antes de sua estreia, causava expectativas. Fiquei impactado com a estreia, com toda aquela crueza narrativa, embalada por uma abertura de trilha retumbante, que aumentava o clima de suspense. Amei de cara! Acompanhei a novela toda com muito interesse. No dia do último capítulo, quando seria revelado o responsável pela explosão, eu não pude conter o nervosismo. Foi um dia de esperar ansiosamente a noite chegar. E chegou! E o tanto que eu vi e revi o último capítulo, que eu acho tão bem desenhado. Tudo fazia sentido, o crime era deveras bem engenhoso.

Chegamos a fazer um bolão na família para saber quem explodiu o shopping. Ninguém ganhou…

André Santana

sábado, 1 de agosto de 2020

Saída de "Chaves" da TV brasileira é o fim de uma era


No último mês, o Multishow anunciou o fim da exibição das séries Chaves e Chapolin, por conta do encerramento do contrato com a Televisa. Por isso, o canal fez uma despedida à altura, programando episódios pouco vistos no Brasil e saudando a importância da série. Foi uma despedida bacana, já que o Multishow tem uma relevância grande na história de Chaves no Brasil, já que foi o primeiro canal a organizar os episódios, exibi-los em ordem cronológica e resgatando vários capítulos “perdidos” e “inéditos”. Valeu!

Porém, o espectador foi pego de surpresa com a informação que não foi apenas o Multishow que perdeu os direitos de Chaves. O SBT também anunciou que a série não poderá mais ser exibida. E isso na mesma semana em que Chaves havia retornado à programação diária do canal, depois de um ano indo ao ar apenas nos finais de semana. Um imbróglio envolvendo a Televisa, produtora da série, e Roberto Gomez Fernandes, filho de Chespirito e dono da criação do pai, fez com que Chaves, Chapolin e Chespirito saíssem do ar por aqui e também fora daqui. Até mesmo o Prime Video, que tinha as séries em seu catálogo, teve que tirá-la de cena.

Goste-se ou não da série, é inegável que a criação de Chespirito é parte importante do SBT e, consequentemente, da própria TV brasileira. Chaves e Chapolin eram parte da grade da emissora desde 1984, popularizaram na década de 1990 com a exibição na hora do almoço e, desde 2000, encararam um vai-e-vem na grade que se estendeu até a última sexta-feira, 31. Nos últimos 20 anos, Chapolin voltou esporadicamente, enquanto Chaves virava diário e semanal à vontade de Silvio Santos. Neste contexto, “salvou” a faixa das 18 horas da emissora diversas vezes, além de se consolidar nas manhãs de domingo.

Neste tempo todo, a atração se tornou curinga da emissora, sempre escalado para resolver problemas de audiência. Sua mais recente volta à faixa das 14 horas foi justamente para isso, tentar alavancar o horrendo Triturando, que entra no ar logo depois. E tinha dado certo! Agora, sem Chaves, o SBT terá vários problemas para resolver.

Mauricio Stycer, em sua coluna no UOL, disse que a falta da série pode ser boa para o SBT, que se verá forçado a buscar novidades. Porém, penso que esta visão é otimista demais, apesar de ser mesmo o ideal. O SBT não é de buscar novidades: a emissora vive de seu arquivo e, recentemente, dos enlatados estranhos que Silvio Santos traz na mala a cada nova viagem aos EUA. Ou seja, não estranhem se o canal enfiar mais Alarma TV ou WWE Raw em alguns dos “buracos” deixados por Chaves.

Por exemplo, nas manhãs de sábado, o SBT exibia Clube do Chaves, faixa que reunia episódios clássicos de Chaves e Chapolin, e também esquetes tirados do programa Chespirito, com personagens menos famosos do humorista mexicano. Para tapar este buraco, a emissora escalou The Big Bang Theory (boa comédia, mas que nada tem a ver com o horário das 6h de sábado) e a nacional Patrulha Salvadora. Ou seja, o canal vai revirar seu baú em busca de “novas reprises” para substituir a reprise de Chaves.

Nas manhãs de domingo, horário em que Chaves estava consolidado e dando trabalho à Record há anos, a emissora vai exibir Triturando. Não faz muito tempo que Silvio Santos testou sua criação neste horário, e não deu certo. O programa de Chris Flores afundou o horário e prejudicou o Domingo Legal. E, durante a semana, Chaves deve ser substituído pelas séries infantis da Nickelodeon que já ocupavam a faixa anteriormente, como The Thundermans e Henry Danger. Ou seja, mais reprises.

Assim, não será a falta de Chaves que fará o SBT sair do limbo. Pelo contrário. A tendência é que o limbo fique ainda mais amplo com esta ausência. O SBT foi o canal que mais perdeu audiência com a crise da pandemia da covid-19. Agora, sem Chaves, a coisa vai ficar um pouco pior. Por isso, discordo de Stycer: a saída de Chaves não vai fazer bem ao SBT. Pelo contrário. É uma perda enorme.

André Santana

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Tentando ser "plural", CNN Brasil acaba sendo irresponsável

Na minha primeira análise sobre a CNN Brasil, apontei como qualidade o fato de a emissora buscar a isenção, abrindo espaços tanto para os críticos ao governo, quanto ao próprio governo e seus simpatizantes. Mesmo ressaltando que o quadro O Grande Debate é um desserviço, já que nivela debatedores desnivelados e reforça a polarização de maneira prejudicial, ainda pensava que a emissora tinha mais acertos que erros neste sentido.

Porém, fui alertado pelos comentaristas do blog (que sempre proporcionam debates inteligentes e saudáveis por aqui, obrigado!) de que esta pretensa pluralidade levava a distorções. Concordei, mas ainda confiei na boa vontade do canal de notícias. Só que fui obrigado a mudar de ideia e fazer coro aos meus comentaristas: esta pluralidade alardeada pelo canal, infelizmente, não existe na prática.

Isso ficou bem claro nesta semana, quando a emissora lançou o quadro Liberdade de Expressão. Nele, os jornalistas Sidney Rezende e Alexandre Garcia, separadamente, apresentam análises e pontos de vistas sobre vários assuntos. E eis que Garcia, um declarado pró-governo, tascou uma “pérola” logo em sua estreia, ao afirmar que o uso da cloroquina no tratamento à covid-19 do presidente era uma prova clara da eficácia do medicamento. Esta fala, obviamente, repercutiu bastante, por conta do absurdo da situação.

Não há problema em ser pró-governo. O problema é quando transformam desinformação em “opinião”. Ciência não é opinião. Ciência é ciência. Há trocentos estudos científicos falando da ineficácia da cloroquina no combate à covid-19. E não se pode refutar tais estudos com opiniões. Estudos são feitos com métodos. Opiniões, não. Não é preciso ser um cientista para entender que um efeito numa pessoa não é um método de estudo científico. Uma pessoa não é uma amostragem. Uma pessoa é uma pessoa. Que tomou cloroquina, mas também tomou água, refrigerante e comeu um chocolate. Então, se seguirmos a lógica do Alexandre Garcia, o presidente é a prova viva de que chocolate cura covid.

A repercussão foi tão negativa que, no dia seguinte, a CNN mudou o nome do quadro para Liberdade de Opinião. E apenas reforçou o óbvio: opinião NÃO É ciência. Opinião é alguém gostar de amarelo, enquanto outro alguém gostar de verde. Eficácia de medicamento não deve ser analisada com opinião, e sim com experimentos científicos. Se a grande maioria dos cientistas fala da ineficácia do medicamento, quem é Alexandre Garcia para discordar deles?

A situação é ainda mais triste quando vemos a notícia de que, na CNN americana, uma âncora interrompeu um defensor da cloroquina. Foi Brianna Keilar, que entrevistava Tim Murtaugh, assessor do presidente dos EUA. Assim que ele começou a defender o medicamento, Keilar o cortou, e afirmou: “você está prestando um desserviço real aos americanos”. A âncora citou estudos, Murtaugh quis rebater, e ela foi firme: “nossa conversa acabou. Acho que você está realmente confundindo a situação, o que não ajuda a saúde de ninguém. Obrigada”. Em seguida, a jornalista chamou um médico para falar sobre isso.

Ou seja, a CNN americana está tratando o assunto com a seriedade que ele merece. Já a CNN brasileira dá espaço para disseminação de informações desencontradas, alegando estar ouvindo “todos os lados”. Neste caso, só há dois lados: o lado da mentira e o lado da verdade. Se a CNN Brasil dá à mentira o mesmo peso que dá à verdade, então isso não é jornalismo. Que pena!

André Santana

terça-feira, 28 de julho de 2020

Depois de se aventurar no domingo, Sabrina Sato ganha programa de namoro

Lembra quando Sabrina Sato perdeu o seu Programa da Sabrina, e correu solta a notícia de que a Record estudava um formato de namoro para ela apresentar? Pois bem. De lá para cá, a “japa” herdou o Domingo Show, ficou uns três dias ali, viu o quadro Made In Japão se tornar programa de sábado à noite (e que passou em brancas nuvens), e voltou à geladeira novamente. Mas agora, o tal programa de namoro vai finalmente sair do papel.

É interessante esta história toda. Quando saiu a primeira notícia de que Sabrina teria um programa de namoros, imaginei que a Record já tinha este formato, e encaixou Sabrina nele porque a apresentadora estava sem projeto. No entanto, não foi bem assim, agora ficou claro. Na verdade, alguém na emissora cismou que ela deveria comandar um programa de namoros e, desde então, estão em busca de um formato assim. Estranho, né? Sabrina tem cara de programa de namoro?

Mas enfim. A Record finalmente encontrou este formato. A nova atração, que vem sendo chamada de Game dos Clones, será uma parceria entre a emissora e a Prime Video. No programa, um participante descreve como sua “alma gêmea” deve parecer. A produção, então, seleciona oito concorrentes com as características pedidas,os veste exatamente iguais, e eles disputam o participante do dia. Game dos Clones deve estrear ainda este ano, nas noites de sábado.

Ou seja, o destino de Sabrina é mesmo permanecer no difícil horário da noite de sábado. Foi ali que seu Programa da Sabrina ficou no ar por alguns anos, e foi ali que o Made In Japão teve uma passagem pouco marcante. Vamos ver se o tal Game dos Clones terá força para fazer o sábado da Record renascer, afinal, a única coisa que funcionou ali foram justamente as reprises do Show do Tom, atualmente no ar.

Falando em Sabrina Sato, o Notícias da TV anunciou hoje, 28, que a apresentadora também deve ficar com o Dancing Brasil. Segundo o site, Xuxa Meneghel não tem mais interesse em permanecer na emissora, enquanto a direção da Record também não deve fazer questão de segurá-la. Assim, o Dancing, que não será produzido este ano por causa da pandemia, deve voltar em 2021 com nova apresentadora.

Quanto à Xuxa, fica a dúvida sobre seu destino. Se ela realmente não renovar com a Record, o mais provável é que ela se dedique às parcerias que anunciou, em sua recente participação no Otalab, de Otaviano Costa, no UOL. Xuxa falou de seus atuais projetos: “Deixa eu te dizer uma coisa: a gente tem uma série para fazer no HBO Plus, a gente tem um filme que vai sair pela Netflix, um seriado que vai sair pela Disney e os livros”, revelou ela. Vale lembrar que os livros que ela anunciou devem sair pela Globo Livros, o que já levanta a suspeita de um possível retorno da loira ao canal. 

Ainda acho que ela só volta à Globo se pintar um grande projeto, já que a emissora não tem segurado ninguém. Mas, se não voltar, Xuxa está bem servida, afinal, grifes como HBO, Disney e Netflix não são qualquer coisa, não é mesmo?

André Santana

sábado, 25 de julho de 2020

"Fina Estampa": a novela dos absurdos


Como se vê na edição especial de Fina Estampa, que a Globo vem exibindo na faixa das nove, a trama de Aguinaldo Silva vai se desenrolando e abraçando cada vez mais o absurdo. Com a trama principal já esgotada, o autor passa a apostar em situações episódicas e toscas, que não fazem o menor sentido. Como a reprise alcançou seu momento mais non sense, com Tereza Cristina (Christiane Torloni) gritando que morreu, dentro de um cemitério, logo após dar de cara com Marcela (Suzana Pires), é hora de o TELE-VISÃO resgatar este texto, publicado originalmente em 28 de janeiro de 2012, justamente neste momento da exibição original. Acompanhe:

Na última semana, a malvada Tereza Cristina deu de cara com uma morta: a jornalista falecida Marcela surgiu vivinha da silva, disposta a desmascarar a terrível vilã de Fina Estampa. Mas espere: não é jornalista, e sim sua irmã gêmea justiceira, da qual ninguém sabia da existência. Ou seria a própria Marcela, que deu uma de Bia Falcão (Fernanda Montenegro), forjou a própria morte e agora voltou com essa balela de irmã? Mais um mistério para a reta final de Fina Estampa. E mais uma prova de que a trama de Aguinaldo Silva foi feita para não se levar a sério.

O enredo está cada vez mais absurdo. Além da volta de Marcela (ou não), Fina Estampa nos brinda com as toscas tentativas de atentados contra os filhos de Griselda (Lília Cabral), orquestradas, claro, pela terrível Tereza. Entre uma tentativa de assassinato e outra, a megera rola pelos lençóis de seda que encobrem a cama de sua suíte máster com Pereirinha (José Mayer), um tipo ogro que parece mais uma tiração de sarro dos personagens pegadores que Mayer acumulou durante sua carreira.

Tereza Cristina faz inúmeras referências à Nazaré Tedesco (Renata Sorrah, em Senhora do Destino), fazendo vítimas e mais vítimas rolarem pelas escadas de sua casa (é tão fácil assim morrer escada abaixo, gente?). Enquanto isso, Pereirinha diz que, se fosse galã de novela, pegaria todo mundo. Isso sem falar na tia Íris (Eva Wilma), que nada mais é que Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque, de A Indomada, ressurgida das cinzas (bem que ela disse que voltaria, né?). E assim Fina Estampa vai se construindo, absurdo após absurdo, e a cada novo absurdo, crescem os índices de audiência.

Aguinaldo Silva, o autor, parece mesmo disposto a massagear o próprio ego em Fina Estampa. Além das inúmeras referências a si mesmo e à sua obra, o autor parece se deliciar criando uma novela xarope, porém a prova de erros. Pra que coerência se a audiência está nas alturas, não é mesmo? Assim, o autor se diverte ao apresentar uma obra que parece ser escrita no piloto automático, onde tudo parece uma grande gozação.

Além disso, as referências a outras novelas de Aguinaldo parecem passar atestado de que Fina Estampa é uma colcha de retalhos mal costurada, aquém das obras as quais reverencia. Tereza Cristina, ao invocar Nazaré o tempo todo, perde sua força, expondo ao público o quanto ela está anos-luz atrás da megera de Senhora do Destino. Afinal, a rival de Maria do Carmo (Suzana Vieira) era igualmente terrível e irônica, mas esta tinha um motivo claro que a movia. Fora que mostrava uma ponta de humanidade ao adorar a “filha”, além de ter um carisma só dela. Já Tereza é apenas uma chata entediada, protegendo um segredo que, aparentemente, e tão tolo quanto sua própria trajetória.

Enquanto isso, a verdadeira Nazaré, que agora atende pelo nome de Danielle Fraser (Renata Sorrah), está numa trama paralela que, por ser bastante distante da trama principal, acaba aparecendo como secundária. Uma pena, pois é a única trama verdadeiramente interessante de Fina Estampa. Danielle, lá no seu cantinho, agiu feito o doutor Albieri (Juca de Oliveira), de O Clone, ao gerar o sobrinho numa barriga de aluguel sem o consentimento da própria, Esther (Julia Lemmertz). Esther, assim como a Deusa (Adriana Lessa), foi envolvida inocentemente nas artimanhas da cientista maluca e, agora, vai enfrentar uma briga para poder ficar com a filha, já que a mãe biológica Beatriz (Monique Alfradique), outra vítima da médica antiética, descobriu a verdade e ficou mexida ao saber que existe uma filha sua, cujo pai biológico é o falecido grande amor de sua vida.

Trata-se de uma clara mistura de Barriga de Aluguel e O Clone, mas não se contesta a força dramática deste enredo. Por isso mesmo, este núcleo devia ter mais visibilidade, até porque conta com intérpretes inspirados e foge do tom boboca da trama principal. Pena que nem tudo é perfeito: Aguinaldo tratou de juntar Danielle com Enzo (Julio Rocha), formando um casal constrangedor. Julio Rocha, definitivamente, não é um bom ator, e Renata Sorrah precisa cortar um dobrado para convencer neste romance sem pé nem cabeça. É uma dobradinha com cara de monólogo.

Aguinaldo Silva, novelista de respeito, assinou algumas das principais novelas da história da TV. Roque Santeiro, Vale Tudo, Pedra Sobre Pedra, Fera Ferida, A Indomada e Senhora do Destino enriquecem o currículo deste grande autor. No entanto, depois de escrever a interessantíssima, porém não tão boa de Ibope Duas Caras, o autor parece ter decidido não mais se arriscar e apenas se divertir. Fina Estampa tem o mérito de elevar a audiência do horário nobre, mas deverá ficar na história como a novela que homenageou o absurdo. 

André Santana

sexta-feira, 24 de julho de 2020

SBT e as novas aventuras de Silvio Santos

Mais uma semana movimentadíssima no SBT. Apesar de o canal não ter nada de novo, afinal, boa parte das produções segue paralisada por causa da pandemia e o jornalismo da emissora é uma piada, o SBT está longe de viver no tédio. Isso porque os lendários e constantes rompantes de Silvio Santos no “mexe-mexe” da grade de programação de sua TV estão mais fortes do que nunca. 

O curioso é que Silvio Santos gosta mesmo de mexer em suas apostas pessoais. Veja só! No começo da semana, ele “ressuscitou” o Alarma TV, que a gente já estava quase se esquecendo. O “patrão”, agora, exibe a grotesca atração nas madrugadas do SBT, aproveitando o horário avançado para exibi-lo sem cortes. Já na estreia, rolou uma imagem de decapitação. Olha o nível!

Como se não bastasse, o Triturando voltou à pauta dos telefonemas de Silvio. Na última quarta-feira, 22, ele tratou de avisar a produção que o programa agora se chamaria Notícias Impressionantes, e que teria apenas Chris Flores na apresentação, afastando Flor e Ana Paula Renault do vídeo (Gabriel Cartolano assumiu a narração dos VT's). O que se viu no ar foi uma espécie de Alarma TV “light”, com imagens sem contexto e notícias velhas, chamadas por uma Chris Flores que consegue manter a classe e a credibilidade mesmo diante de um festival de impropérios (Chris é mesmo uma profissional e tanto!). Obviamente, não deu certo, e Triturando voltou. Notícias Impressionantes se junta ao Telefone & Ganhe e Você é o Jurado com Supla no seleto grupo de programas do SBT que duraram 1 mísero dia.

Agora, a mira do “patrão” voltou ao Primeiro Impacto. A previsão (digo “previsão”, porque até a publicação deste texto, Silvio pode mudar de ideia de novo) é que o matinal volte a ter um compilado de “melhores momentos” na faixa da tarde, entre 11h30 e 14 horas. Com isso, não apenas o Primeiro Impacto ganha uma segunda edição, como o Bom Dia & Cia também será fatiado em dois. Não é preciso ser nenhum gênio para perceber que não vai dar certo, e que tudo volta a ser como era na segunda-feira.

Mas ainda não acabou! Do mesmo baú em que Silvio tirou o pó do Alarma TV foi sacado o Milagres de Nossa Senhora, série mexicana que conta histórias de fé. O programa, tosco e desinteressante, já foi testado em tudo que é horário no SBT e não vingou em nenhum deles. Agora, será colocado nas noites de sábado, antes do SBT Brasil, faixa horária que vinha sendo ocupada por reprises do Sabadão com Celso Portiolli. Façam suas apostas: quanto tempo vai demorar para a série ser substituída por WWE Raw?

Por conta da pandemia, a previsão é que Silvio Santos não volte às gravações de seu programa este ano. Atitude correta e mais do que recomendada. Mas o dono do SBT não vai ficar parado. Pode ter certeza que tem muito mais mudança saindo de onde vieram estas. Ficamos na torcida para que a emissora sobreviva aos desmandos estapafúrdios do patrão. 

André Santana

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Globo programa novas reprises de novelas

Há poucos dias, falamos aqui sobre a ideia da Globo de retomar as gravações de Amor de Mãe e Salve-se Quem Puder, cheia de protocolos de segurança e muitas restrições, por conta da pandemia. Comentei da minha preocupação em voltar sem as condições adequadas, o que poderia derrubar a qualidade das produções. Sobretudo Amor de Mãe, que tem um realismo marcante, voltar de qualquer jeito seria um final melancólico para uma novela com tantas qualidades.

Ao que tudo indica, a própria emissora fez avaliação semelhante e decidiu que as novelas inéditas só retornam à grade em 2021. Assim, novas reprises serão escaladas para as faixas das seis, sete e nove. A Força do Querer, de Gloria Perez, sucesso de 2017, foi a escolhida para a vaga de Fina Estampa, que deve sair do ar no final de agosto.

Muitos reclamaram que se trata de uma novela recente. E realmente é. Mas não vejo isso como um problema. Totalmente Demais também é recente, e se mostrou o principal acerto desta safra de reprises, com uma audiência até superior à da primeira exibição. O critério da Globo parece ser, simplesmente, audiência. Se considerarmos os principais sucessos da década da faixa das nove, os maiores títulos são Fina Estampa, Avenida Brasil, Amor à Vida e A Força do Querer (além de ImpérioO Outro Lado do Paraíso e A Dona do Pedaço). Fina Estampa já foi, e Avenida Brasil esteve no ar há pouco tempo. Das restantes, A Força do Querer parece mesmo a melhor opção.

Enquanto isso, ficam as apostas sobre o que virá no horário das seis e das sete. Às seis, ao que tudo indica, a escolhida será Flor do Caribe, de 2013. Novelinha arroz-com-feijão simpática, mas longe de ser unanimidade. Minha torcida particular era por A Vida da Gente, ou Além do Tempo, novelas de maior expressão do horário. Já às sete, a mais cotada, segundo a imprensa, é Rock Story. Ótima escolha, sem dúvidas, mas eu sonhava mesmo era com o remake de Ti Ti Ti. Vamos ver como será.

Além das novelas do horário nobre, a Globo segue reprisando novelas no Vale a Pena Ver de Novo, claro. E Laços de Família foi a escolhida para a vaga de Eta Mundo Bom!. Uma escolha mais do que celebrada por este blog, afinal, Laços é uma das novelas preferidas deste pequeno e cabeçudo blogueiro. Num momento em que há reprises de novelas mais recentes no horário nobre, nada mais adequado que o Vale a Pena resgate tramas um tanto mais “antiguinhas”. Trama deliciosa, Laços de Família tem condições  de repetir o sucesso de Por Amor. 

Atualização (24/07, às 11h16) - A Globo confirmou ontem, 23, que Haja Coração foi definida como a substituta de Totalmente Demais, contrariando a especulação de que Rock Story era a mais cotada. Assim, ao menos, eles poderão manter a participação de Fedora (Tatá Werneck) no último capítulo de Totalmente Demais.

Resta saber como fica a reprise de Sassaricando no Viva, já confirmada como substituta de Brega & Chique. Como se sabe, Haja Coração é uma releitura da trama de Silvio de Abreu, assinada por Daniel Ortiz. Será, no mínimo, estranho, a original e o remake serem exibidos simultaneamente. Viva e Globo, normalmente, evitam este tipo de coincidência. Ou seja, não estranhem se o Viva adiar Sassaricando e escalar outra novela para o horário. Afinal, não seria a primeira vez que o canal suspenderia uma atração já anunciada. Vamos ver.

André Santana 

sábado, 18 de julho de 2020

Mais cozinha: "MasterChef" e "Top Chef" tentam driblar pandemia


Além da dramaturgia, a televisão brasileira também viu o segmento dos reality/talent shows sendo prejudicado pela pandemia do novo coronavírus. Por conta disso, tornou-se um desafio manter no ar tais programas. Mas eles são necessários, sobretudo em razão do imenso potencial comercial de atrações como as competições de culinária. Assim, Band e Record lançaram, nesta semana, as novas temporadas de MasterChef e Top Chef, tentando minimizar o impacto da pandemia.

Para “salvar” a temporada 2020 do MasterChef, a Band tratou de transformá-lo num game show. Baseada em experiências de outras versões do MasterChef no mundo, a emissora apostou num formato baseado em competições semanais. Assim, não corre o risco de ver uma competição que costuma durar meses ser interrompida totalmente por conta de um participante que, eventualmente, contraia covid-19.

A solução foi, basicamente, simplificar o formato. Ao invés de explorar uma narrativa que avança a cada episódio, o novo MasterChef propõe uma dinâmica que começa a termina no mesmo capítulo. Assim, cada episódio mostra uma disputa entre oito chefs, e um deles se sagra o vencedor. No episódio seguinte, novos competidores e um novo vencedor.

Ou seja, com a mudança, o MasterChef perde a principal característica de um reality/talent show: a exploração dos conflitos causados pela convivência. Sem maiores desdobramentos, MasterChef ganha contornos de um game show tradicional, no qual os participantes não vão em busca de uma exposição maior, e sim de “apenas” um prêmio.

Com esta mudança drástica, MasterChef perde um pouco do charme. Afinal, a grande graça do programa é conhecer os participantes e se deixar envolver por eles. O espectador se identifica com um deles e torce por ele. Ao mesmo tempo, cultiva pequenos ódios por outros, torcendo contra. Elege mocinhos e vilões. E embarca na emoção. Agora não. Há ainda o desafio na cozinha, os comentários cortantes de Paola Carosella, Erick Jacquin e Henrique Fogaça, e há a contagem aflitiva de Ana Paula Padrão. Mas não há mais a mobilização das torcidas e da agitação do formato original. Neste contexto, o programa perdeu muito com a mudança.

Porém, como boa parte do trunfo do MasterChef é seu elenco carismático, a atração deve se manter escorado neles. Com isso, apesar de perder em emoção, não deve perder em diversão. Só é preciso mais cuidado com os protocolos de higiene, já que os competidores surgem sem máscara e se aglomerando no mercado. É preciso atenção.

Já o Top Chef Brasil tem problemas maiores. O programa da Record estreou mostrando os mesmos pontos fracos que o fizeram passar em brancas nuvens no ano passado: seu elenco insosso. Felipe Bronze é simpático, mas segue sem firmeza na apresentação. Falta mais pulso firme ao chef. Além disso, os jurados Ailin Aleixo e Emmanuel Bassoleil não são lá muito carismáticos. A falta de um personagem que imprima alguma identidade ao programa é grave. Tudo é muito asséptico e sem ritmo. Ou seja, para que a segunda temporada da atração consiga uma repercussão minimamente superior à do ano passado, é preciso esperar que um participante se destaque e dite os rumos da narrativa. O que, até agora, parece pouco provável que aconteça.

Ao contrário do MasterChef, o Top Chef começou a ser gravado antes da pandemia. Teve apenas cinco episódios gravados, e depois foi interrompido. Voltará a ser gravado agora. Com isso, a emissora assume um risco, já que esta pausa e a volta neste contexto submetem o programa a imprevistos que podem prejudicar seu andamento. Já pensou se um participante confinado fica doente, por exemplo?

Em suma, são muitos os desafios da nova temporada de Top Chef Brasil. Mas o principal deles será convencer o público a dar uma nova chance à atração, dada a temporada sem apelo do ano passado. Complicado.

André Santana

sexta-feira, 17 de julho de 2020

"Otalab" é mais uma interessante experiência de TV na internet

Com a popularização (e profissionalização) dos vídeos da internet, a TV, muitas vezes, tentou emular o formato. O contrário também já aconteceu: há experiências na internet que se inspiram em formatos televisivos. Neste contexto, a chegada do streaming (e até da pandemia) fez tais experiências ganharem mais força. Já falamos aqui que o Globoplay tem feito boas experiências de programas remotos para a plataforma. E, agora, o UOL entrou na onda.

Não é de hoje que o portal UOL tenta aumentar a oferta de produção audiovisual. E agora, com este novo cenário criado pela pandemia, incluindo aí a popularização das lives, começam a surgir formatos híbridos e criados para serem veiculados nesta plataforma. Otalab, estreia de ontem, 16, do portal, surge nesta esteira. É Otaviano Costa mostrando a tal inquietação que ele sempre se referiu na ocasião em que deixou a Globo, onde comandava o game Tá Brincando

Otalab parece mesmo um programa de TV feito para a internet. Uma atração de variedades, no qual cabem todos os assuntos. O apresentador surge simpático num estúdio intimista, no qual divide a cena apenas com uma banda. Como em todos os programas de TV da atualidade, no Otalab os convidados surgem por videochamadas. Na estreia, o apresentador comandou boas entrevistas com Xuxa Meneghel, Paulo Ricardo, e outros convidados.

O diferencial é que o Otalab conta com o “material humano” do UOL. A promessa é que o apresentador receba colunistas do portal para debater assuntos do dia. Reinaldo Azevedo e Chico Barney participaram da estreia. Assim, o Otalab se mostrou como uma “salada”, misturando informação e entretenimento. É praticamente um programa de auditório de fim de semana da TV aberta, mas sem auditório presencial. Cabe de tudo.

Foi uma boa estreia. A atração leva a produção audiovisual do UOL para um novo lugar, neste momento em que o portal tem investido em nomes populares da TV (além de Otaviano, Zeca Camargo lançou um programa na plataforma recentemente). E ficou a cara de Otaviano Costa. Otalab deixou claro qual era a tal “inquietação” de Otaviano: ele queria um programa mais autoral. Um espaço dele, onde ele pudesse fazer o que quiser.

E a TV convencional, como já dissemos aqui em posts anteriores, tem cada vez menos espaço para isso. Programas autorais têm perdido a vez para formatos de temporada, e os comunicadores estão se tornando meros mestres de cerimônias. Otaviano nunca escondeu que queria um programa dele. Como não conseguiu na TV, resolveu explorar um novo terreno. O resultado não apenas convence, como abre um precedente interessante. Mostra que trocar a visibilidade de uma TV aberta para um espaço autoral na internet pode não significar um “rebaixamento”, pelo contrário: pode ser uma reinvenção possível. E muito agradável. 

Otalab é exibido toda quinta-feira, às 15 horas, ao vivo, nas plataformas do UOL. Para quem não viu, o primeiro programa pode ser assistido abaixo:


André Santana

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Com "Tempero de Família", "É de Casa" reforça sua vocação de "quintal da Globo"

O Notícias da TV divulgou nesta quarta-feira, 15, que o programa Tempero de Família, exibido pelo GNT, vai se transformar num quadro do É de Casa. Na já tradicional atração do canal Globosat, o ator Rodrigo Hilbert ensina diversas receitas e modos de fazer. Na estreia, por exemplo, ele ensina o preparo de uma costela, mas também ensina a fazer o forno (!).

O programa das manhãs de sábado da Globo, então, passa a mostrar os melhores momentos do programa do GNT. Com isso, a emissora reforça a impressão de que o reaproveitamento de conteúdo de seus canais pagos na TV aberta é mesmo um caminho sem volta. E mostra que o É de Casa é mesmo o “quintal da Globo”, ou seja, é ali onde são “despejados” conteúdos e profissionais diversos.

Vale lembrar que, desde a estreia, É de Casa se coloca como um programa de “reaproveitamento”. Afinal, ele estreou sob o comando de Patrícia Poeta, Ana Furtado, Cissa Guimarães, André Marques, Tiago Leifert e Zeca Camargo. Em comum, todos eles (com exceção de Leifert) estavam sem programa na emissora. Ou seja, É de Casa virou meio que um “prêmio de consolação” para profissionais queridos do canal, mas que estavam sendo pouco aproveitados.

E, agora, desde que a atração passou a ocupar quase seis horas na grade dos sábados da Globo, esta impressão aumentou. O exemplo mais recente é Fernanda Gentil, que, com o Se Joga fora do ar, passou a responder por um quadro do É de Casa, o Mundo Gentil. Além disso, o programa também aposta em quadros com vários colaboradores “exclusivos”, como o chef Ravioli e a campeã do BBB Thelma Assis, além da repórter Maria Cândida.

O “flerte” com o conteúdo do GNT começou em maio. Na ocasião em que o canal pago anunciou a exibição do especial Cartas Para Eva, apresentado por Angélica, o É de Casa exibiu uma versão compacta da atração, como se fosse um quadro. O fato de Ana Furtado se emocionar no ar com a “pílula” do projeto de Angélica chegou a ser notícia em vários sites. Agora, é um programa regular da grade, o Tempero de Família, que ganha um espaço na TV aberta.

É interessante quando todo o Grupo Globo se esforça para otimizar sua produção. Transformar programas de canal pago em quadros de programa de TV aberta pode ser uma saída bastante interessante para que um conteúdo seja mais bem aproveitado. Tempero de Família tem tudo a ver com o É de Casa e, com certeza, vai agregar mais ao matinal. Aliás, outros programas do GNT têm a mesma vocação. Ou seja, não estranhem se surgir um quadro baseado no Decora, ou no Extreme Makeover.

Com isso, reforça-se também a impressão de que o É de Casa vai se tornando praticamente um Fantástico matinal. Com mais horas no ar, o matinal ganhou um conteúdo bastante diversificado, com uma boa atuação do jornalismo e quadros variados. Tornou-se, de fato, uma grande revista eletrônica. Vive um bom momento. 

André Santana

sábado, 11 de julho de 2020

"Diário de um Confinado": série diverte, mas bastidores são mais interessantes


Se é possível tirar alguma lição positiva deste momento terrível que estamos vivendo, é a percepção de como sempre podemos nos reinventar. Na TV, isso é evidenciado com inúmeros programas feitos em casa, ou com poucos recursos, e que vem funcionando muito bem sem a parafernália aos quais estamos acostumados diante de superproduções.

Mas, verdade seja dita, é mais fácil fazer programas de entrevistas com estas soluções caseiras. Atrações de variedades, baseadas em receber convidados, estão se virando muito bem com suas videoconferências. Na Globo, Conversa com Bial e Encontro com Fátima Bernardes são casos de sucesso neste sentido. Serginho Groisman, neste contexto, também passará a apresentar programas totalmente inéditos a partir deste sábado, 11, com gravações de seus Altas Horas em sua casa, e também baseados em entrevistas remotas (até sábado passado, o programa mesclava entradas na casa de Serginho com reprises).

Mas e a dramaturgia? Enquanto os programas de variedades se reinventam, a dramaturgia foi obrigada a se recolher, afinal, não há como fazer novela ou série sem envolver muita gente, ou sem cenas que exigem proximidade dos atores. Porém, até mesmo a dramaturgia parece querer renascer em meio à necessidade de distanciamento social. Diário de um Confinado, que estreou no último sábado, 04, na Globo, se mostrou uma experiência muito interessante neste sentido. Criada e gravada na casa de Bruno Mazzeo, a atração dribla bem as dificuldades deste período crítico.

Na série, a temática, claro, é a pandemia. Mas com o olhar terno e curioso do humor. Diário de um Confinado não tem a pretensão de fazer um tratado sobre a covid-19. Apenas explora as pequenas loucuras humanas em situações adversas. Na trama, Murilo (Bruno Mazzeo) é um homem confinado há semanas, tentando lidar com a situação de estar preso em casa da melhor maneira possível.

Momentos reconhecíveis por quem está confinado surgem a todo o momento. Contato com amigos e parentes por chamadas de vídeo, a dificuldade de manter a casa em ordem, o humor inconstante e as pequenas paranoias hipocondríacas ganham uma leitura bem-humorada nesta série.

Trata-se do bom humor da crônica, que é típica da obra de Bruno Mazzeo. Misturando depoimentos fictícios com pequenos esquetes, Diário de um Confinado não difere muito de outras séries do ator e roteirista, como Cilada e Junto e Misturado. Fazer graça de situações comuns é uma constante nestes programas, e em Diário de um Confinado não é diferente. E funciona. Diário de um Confinado não tem a pretensão de arrancar grandes gargalhadas do público, mas provoca sorrisos involuntários a cada situação reconhecível. Em suma, não traz nada de novo, mas diverte.

No entanto, o fascínio de Diário de um Confinado se dá em razão de seus bastidores. A série ganha uma nova dimensão quando se tem em mente que ela foi criada e gravada na casa do protagonista, dirigida por Joana Jabace, sua esposa. Saber que Débora Bloch é a única atriz que contracena fisicamente com Mazzeo porque ela é vizinha do artista é outra curiosidade saborosa.

E mais: participações especiais luxuosas feitas por videochamadas, com nomes como Renata Sorrah e Fernanda Torres, também gravadas de suas casas, dão a Diário de um Confinado um ar de experimentação muito curioso. Assim, a grande contribuição da série à televisão brasileira não é o seu resultado no ar, mas o que ela significou nos bastidores.

Diário de um Confinado mostra uma reinvenção da produção audiovisual muito interessante. Uma produção gravada em casa, com uma equipe de produção que trabalhou remotamente, e que, no ar, mostra um apuro técnico impecável é, sem dúvidas, um caso de sucesso de produção em tempos de dificuldade.

Claro que não é o ideal. E, óbvio, o contexto é trágico. Mas Diário de um Confinado mostra que é possível produzir com qualidade em situações adversas. É a vitória da criatividade.

André Santana

quinta-feira, 9 de julho de 2020

História da TV: Os 18 anos de "Ilha Rá-Tim-Bum" - parte 2


Anteriormente, no TELE-VISÃO: semana passada, relembramos aqui que o infantil Ilha Rá-Tim-Bum, da TV Cultura, completou 18 anos no último dia 01 de julho. A atração, inicialmente concebida como um spin-off do Castelo Rá-Tim-Bum, que seria chamado de Fazenda Rá-Tim-Bum, passou por diversas mudanças e dificuldades, estreando apenas cinco anos depois do previsto, já com novo nome e novo conceito.

Ilha Rá-Tim-Bum estreou no dia 01 de julho de 2002. Para a exibição, a Cultura adotou uma estratégia semelhante à do Castelo, promovendo três exibições diárias para atingir diversas faixas de público: às 12h30, 15h30 e 19h30. Ao contrário de Rá-Tim-Bum e Castelo Rá-Tim-Bum, que eram formados por quadros educativos e didáticos, Ilha Rá-Tim-Bum tinha o formato de série de aventura, sem quadros fixos. Seu lado educativo era a mensagem ecológica. Por meio das aventuras, a série discutia assuntos como História, ciências, preservação ambiental e sustentabilidade.

A história da série criada por Flavio de Souza começava quando cinco jovens num barco naufragam e vão parar numa ilha misteriosa. São eles: Gigante (Paulo Nigro), Rouxinol (Greta Eleftheriou), Majestade (Thuanny Costa), Micróbio (Rafael Chagas) e Raio (Abayomi de Oliveira). Sem terem como voltar pra casa, os jovens se unem para sobreviverem na ilha, ao mesmo tempo em que conhecem os habitantes do local.

Logo, eles se tornam amigos de Hipácia (Graziella Moretto), uma misteriosa mulher que já viveu muitos anos e testemunhou muitos momentos da História. Meio bruxa, meio alquimista, Hipácia esconde muitos segredos que vão se revelando aos poucos na série. Ela se torna meio “mãezona” do grupo de jovens, protegendo-os dos ataques do monstro Nefasto (Ernani Moraes), uma figura vil que tem um plano maléfico de dominação mundial. O vilão conta com a ajuda de seus capangas Zabumba (Luciano Gatti), um zangão, e Polca (Liliana Castro), uma libélula, e passa a vigiar os jovens, estudando-os para tentar compreender como a humanidade funciona e dominá-la.

Os cinco amigos também conhecem outras criaturas fantásticas da ilha, como Solek (Luiz de Abreu), que é meio homem e meio lagarto, e Nhã-Nhã-Nhã (Angela Dipp), que é meio mulher e meio aranha. Quem se junta a eles também é Suzana (Magda Crudelli), uma espécie de cobra peluda que se torna amiga inseparável de Rouxinol. E vivem por ali os Coisos, uma estranha família de monstros formada por Coiso (Henrique Stroeter), Coisa (Keila Bueno) e Coisinho (Hugo Picchi Neto). Eles têm medo dos humanos e quase não se aproximam, mas são criaturas curiosas que passam o dia tentando adivinhar pra que servem os estranhos objetos que encontram nas mochilas das crianças. Havia ainda o tatu Rá (Pedro Mariano), o pássaro Tim (Fernanda Takai) e o bicho-preguiça Bum (Bukassa Kabengele), três bonecos que narravam a história.

O interessante de Ilha Rá-Tim-Bum era que ele se desenrolava como uma série de aventura própria para crianças mais velhas, com tramas mais obscuras e até momentos com alguma dose de violência. O texto de Flavio de Souza buscava fazer uma espécie de recriação da história da humanidade, mostrando a evolução dos protagonistas e como eles iam se desenvolvendo e modernizando ao viver na ilha. Paralelamente, a trama tinha vários mistérios que iam sendo desvendados aos poucos, descortinando a origem da ilha e de seus habitantes. Assim, cada episódio trazia uma trama fechada, mas ia desenrolando uma trama maior que permeia toda a temporada. Na reta final, Ilha Rá-Tim-Bum se torna quase uma novelinha, com ganchos que vão denunciando o desfecho da história.

Durante a trama, os cinco jovens conhecem a história de Arielibã (Ernani Moraes), um sábio alquimista que vivia com Hipácia e fazia experimentos para buscar proteger a natureza. Éle aparece como um espírito, que guia os jovens e Hipácia. Apenas na reta final, é revelado que  Arielibã foi vítima de uma de suas experiências, fundindo-se a um micróbio e se tornando Nefasto. Assim, quando as crianças descobrem que Nefasto é um “homem micróbio”, traçam um plano para derrotá-lo em definitivo. 

Além deste principal mistério, Ilha Rá-Tim-Bum também guardou outros “plot twists”, como o fato de Suzana ser, na verdade, uma espiã de Nefasto; e também a regeneração de Polca que, aos poucos, se volta contra o vilão. No final da história, as crianças derrotam Nefasto e conseguem deixar a ilha, tornando-se grandes amigos.

Ilha Rá-Tim-Bum foi exibida entre julho e setembro de 2002. Depois, foi reprisada constantemente entre 2003 e 2005. Mas nunca teve grande audiência, e acabou deixando a grade da emissora, retornando apenas na programação da TV Rá-Tim-Bum. Mesmo assim, rendeu um longa-metragem para o cinema, Ilha Rá-Tim-Bum: O Martelo de Vulcano (2003), que também passou em brancas nuvens. O longa, na verdade, é bem fraquinho, já que é todo rodado nos mesmos cenários da série, extremamente artificiais, que não funcionaram no cinema. Para o filme, Liliana Castro não retornou ao papel de Polca, sendo substituída por Bárbara Paz (que chegou a ser testada para a série anos antes). Já Henrique Stroeter, que vive Coiso na série, assume o papel de Solek no filme, substituindo Luiz de Abreu.

Vale ressaltar que Angela Dipp, a Nhã-Nhã-Nhã, é a única atriz a participar de todos os programas da grife Rá-Tim-Bum. Ela aparece em Rá-Tim-Bum como membro da Família Teodoro, aquela que ensinava ao público brincadeiras com cordas, bambolês e outros objetos (“e com vocês, a família Teodoro!”, lembra?). Já em Castelo Rá-Tim-Bum, Angela se imortalizou como a jornalista Penélope. Em Ilha Rá-Tim-Bum, ela é a rabugenta Nhã-Nhã-Nhã, a aranha que conta histórias às crianças. Já Henrique Stroeter, o Coiso, esteve também no Castelo Rá-Tim-Bum como Perônio, o cientista irmão gêmeo de Tíbio, vivido por Flavio de Souza, o criador de Ilha Rá-Tim-Bum (ufa!).

Vale destacar também a luxuosa trilha sonora. Os episódios eram encerrados com clipes de canções dos personagens, interpretados por grandes nomes da música brasileira, como Gilberto Gil (que cantava "Pessoa Nefasta", tema de Nefasto). Já a deliciosa canção de abertura era interpretada por Pedro Mariano, Fernanda Takai e Bukassa Kabengele, que também davam voz aos bonecos Rá, Tim e Bum, os narradores. 

Por conta do pouco sucesso, Ilha Rá-Tim-Bum é pouco marcante e muito pouco lembrada. Mas é uma série divertida, muito bem-feita, e que merecia ser revisitada. Uma nova reprise na TV Cultura não seria uma ideia ruim.

André Santana

quarta-feira, 8 de julho de 2020

A volta do "Show do Tom" e outras novidades da TV

Mesmo em tempo de pandemia e produções paralisadas, o noticiário televisivo tem rendido uma série de assuntos. Entre eles, o fato de ser uma temporada de reprises ter rendido o inusitado retorno do Show do Tom. Sim, o humorístico de Tom Cavalcante, exibido entre 2004 e 2011 na Record, voltou ao ar no último sábado. E, mesmo com a imagem borrada, disse a que veio.

Segundo o Notícias da TV, Show do Tom deu mais audiência que seu antecessor no horário, o reality show Made in Japão, de Sabrina Sato, e o Live Legendários, um programa improvisado que Marcos Mion comandou anteriormente. O que mostra a força de Tom Cavalcante, que segue agradando o público da emissora mesmo com reprises. Isso expõe a carência do humor na grade do canal. É um formato que a Record devia considerar retomar. 

Enquanto isso, na Band, contratações aconteceram. Zeca Camargo foi confirmado como novo funcionário da casa. Mas não como parceiro de Mariana Godoy no novo matinal da emissora, que deve substituir o Aqui na Band, como previsto. E sim como diretor executivo, propondo novos programas e ideias para o canal. E quer saber? Achei a novidade bem interessante. Zeca é um cara de repertório, um profissional da área, que pode contribuir com uma renovação da programação da emissora. Acho que pode funcionar. Aguardemos.

Por fim, na Globo, a retomada das novelas ganha um novo cenário a cada dia. Com as incertezas dos rumos da pandemia, não se sabe exatamente quando a emissora voltará a gravar Amor de Mãe e Salve-se Quem Puder, que foram interrompidas. Com isso, começa a ganhar força a informação de que outra reprise pode ocupar o horário nobre da Globo. E que A Força do Querer é a mais cotada para a vaga. 

Sou um espectador saudoso de Amor de Mãe. Não vejo a hora de a novela de Manuela Dias voltar. Mas reconheço que é um momento de cautela. Uma retomada precoce e cheia de impedimentos, dado os inúmeros protocolos de segurança que deverão ser adotados, pode prejudicar a obra. Seria uma pena uma novela que começou tão bem e parou no auge retornar de maneira apressada, e sem entregar ao público a mesma qualidade inicial. Se os rumos da pandemia são obscuros, talvez a melhor solução seja mesmo esperar mais um pouco. E vamos combinar? Rever A Força do Querer não seria nada mal.

E falando em novelas da Globo, nesta semana circulou a notícia de que Silvio de Abreu estaria preparando sua aposentadoria. O Diretor de Dramaturgia da Globo ficaria mais poucos anos na função, passando o bastão para Ricardo Waddington. O próprio Silvio veio a público desmentir tal informação. E se trata de uma boa notícia. Silvio de Abreu é muito criticado, mas não se pode negar que ele tem mais acertos que erros à frente da dramaturgia da Globo. Ele lançou vários novos autores, organizou a fila de produções e tem sabido dosar a dramaturgia básica com boas experiências. 

Esta gestão vem sendo marcada pelo revezamento entre obras de fácil digestão e garantia de audiência, tipo Walcyr Carrasco, com experiências mais ousadas e/ou sofisticadas, como Manuela Dias, Paulo Halm e Rosane Svartman. E isso é muito positivo.

André Santana

sábado, 4 de julho de 2020

"Fábrica de Casamentos" não consegue evitar repetição em nova temporada


Na semana passada, o SBT estreou a quarta temporada de Fábrica de Casamentos. Estreando com atraso, e com menos episódios, a atração de Chris Flores e Carlos Bertolazzi tem como grande desafio driblar a repetição. E, a julgar pelo episódio de estreia do último sábado, 27 de junho, não será uma tarefa fácil.

Em seus primeiros anos, Fábrica de Casamentos explorava os percalços que a equipe da atração tinha que enfrentar para entregar uma festa de casamento em tempo recorde. É vestido que não fica pronto, é decoração que cai, é bolo que tem a estrutura comprometida… Tudo isso costurado com reclamações da confeiteira, da decoradora e dos demais membros da equipe.

Tudo soava bastante fake, já que algumas situações eram claramente aumentadas para que o conflito ficasse mais evidente. No entanto, não chegava a comprometer. O fato de a atração revelar os bastidores da produção de um evento cheio de detalhes como um casamento, e num tempo tão restrito, garantia a diversão. Mas, passadas duas temporadas, a fórmula se mostrou cansativa. Os problemas começaram a se repetir, e a equipe começava a ficar over com suas reclamações.

Assim, a terceira temporada de Fábrica de Casamentos diminuiu consideravelmente o tempo em que se mostrava o processo de montagem da festa. O programa passou a dar mais enfoque ao casal participante e sua história. Foi uma mudança de foco que deu fôlego ao formato.

No entanto, na estreia da quarta temporada, Fábrica de Casamentos parece querer voltar às origens. O episódio de estreia não deu muito espaço à história dos noivos, preferindo voltar a apostar nos bastidores da festa.

Boa parte do programa mostrou a noiva fazendo suas exigências, enquanto Lucas Anderi reclamava da falta de tempo, e Beca Milano bolava um plano engenhoso para um bolo apoteótico em formato de carro. O maior desafio da equipe foi a falta de simpatia da noiva com flores, que deixou a decoradora desesperada.

Trata-se de uma volta às origens questionável. Fábrica de Casamentos empolgava mais quando dava o protagonismo aos participantes. Como eles mudam a cada episódio, o programa sempre mostrava algo novo.  Voltando a apostar nos bastidores atribulados, a atração tende a se repetir, e os noivos passam a ser coadjuvantes. Vira uma novelinha.

O ideal seria que o programa dosasse estas duas bases. É divertido ver como a equipe corre contra o tempo para montar uma festa. Mas mais divertido e emocionante é conhecer as histórias de vida dos noivos. É a emoção que garante a atenção do público.

André Santana