sábado, 25 de maio de 2019

"Topíssima" tem protagonista controversa, mas história tem potencial

"Sou empoderada!"

Cristianne Fridman é uma das mais festejadas autoras da Record. Dona de sucessos, como Chamas da Vida e Vidas em Jogo, a novelista é uma das poucas (senão a única) sobrevivente da “velha guarda” de autores da Record, que fez histórias com as arrojadas tramas das 22h exibidas entre 2006 e 2012. Ela se adaptou ao atual momento do canal, ao assinar a macrossérie bíblica Jezabel, mas seu forte é mesmo a novela convencional. E a estreia de Topíssima, apesar do nome pavoroso, deixou uma boa impressão, mesmo com a apresentação equivocada da mocinha da história no primeiro capítulo.

Na estreia, Sophia (Camila Rodrigues) aborreceu na maioria das cenas em que apareceu, desenhada como uma patricinha esnobe e voluntariosa. Sua empregada, Clementina (Cláudia Mello), deu a dica de que Sophia tenta aparentar o que não é. No entanto, tudo o que foi visto no primeiro episódio contradisse a fala da governanta.

Além de cultivar o estranho hábito de observar o humilde motorista Antonio (Felipe Cunha) com uma luneta, Sophia surgiu também com um ar blasé em vários momentos. Ela também mostrou certa ojeriza aos homens, quando a mãe Lara (Cristiana Oliveira) a fez assinar um papel no qual concordava em se casar dentro de um ano para assumir a presidência da universidade da qual é dona. Foi assim que a autora quis passar a mensagem de que Sophia é uma feminista. E isso é perigoso. A novela pode cair na armadilha de tratar o feminismo como uma luta contra os homens. Obviamente, não é isso.

No entanto, é bem possível que Sophia vá além da simples caricatura. O texto deixou brechas para que a personagem, aos poucos, mostre que a pose de dondoca é apenas uma casca. E que ela, afinal, é a heroína da história. O bom desempenho de Camila Rodrigues também ajuda a fazer da mocinha alguém que desperta simpatia, apesar da aparente arrogância. Fica a torcida para que isso aconteça.

Mas, relevando a apresentação equivocada de Sophia, Topíssima mostrou algumas qualidades. Fridman é uma novelista experiente e entende a arquitetura do bom folhetim. Isso foi visto no primeiro capítulo da obra, que apresentou os principais personagens com eficiência e agilidade. Além disso, a autora conseguiu mesclar bem o típico romance de gato e rato com assuntos contemporâneos, incluindo até uma trama sobre tráfico de drogas dentro de uma universidade. Com isso, resgatou o bom folhetim policial, que a emissora consagrou no passado.

O elenco também é interessante. Felipe Cunha, o mocinho, é um rosto conhecido de outras tramas da Record, mas aparece aqui como destaque. Não decepcionou. Também é bom ver Cristiana Oliveira com uma boa personagem contemporânea. A perua Lara é um tipo interessante. Enquanto isso, Silvia Pfeifer surge (salvo engano, pela primeira vez numa novela) como uma mulher humilde, Mariinha. E é impressionante que, mesmo com figurino simples e sem maquiagem, ela ainda exala elegância.

Com Topíssima, a Record mostra que não perdeu a mão na produção de novelas contemporâneas. A história tem potencial e surge dando um respiro na teledramaturgia da casa. Afinal, é certo que o canal descobriu um nicho com suas novelas bíblicas, mas é certo também que elas começam a mostrar cansaço. Topíssima, então, pode ser o produto que faltava para que a emissora mantenha seu segundo horário de novelas com boas produções. A estreia mostrou que é possível. Mais do que isso: é necessário.

André Santana

8 comentários:

  1. Concordo com você! E digo mais: como a novela conta com a supervisão da filha de Edir Macedo, creio que a feminista da história será tratada como uma maluca, que vai "amansar" quando achar o "homem certo". Complicado, hein?

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    1. Sim, Felipa! Esse é o meu temor também. Gosto da Fridmann e vou confiar na sensibilidade dela de não desmerecer o movimento feminista.

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  2. Eu gosto da Fridman, embora eu ache que ela as vezes tem uns dialogos a la Walcyr. Mas ela sabe estruturar uma novela. Cheia de cliches, o que nao eh demeritro. A novela na verdade eh uma adaptacao de uma historia da Cristiane Cardoso, portanto eu percebi bem certas influencias da IURD. Exemplo, eh a tal 'barbudia que existem nas universidades'. Embora a novela tenha sido escrita e planejada a bastante tempo, as intencoes coincidiram bem nesse momento que o governo Bolsonaro usa o mesmo argumento para cortar verbas das universidades. Mas dessa vez nao sera tao descascarado como foi Apocalipse essa coisa de por dogmas da IURD.
    Por enquanto to acompanhando. Eh um frescor ver uma comedia de costumes e uma novela nao biblica (apesar de eu ver ainda na trama certos dogmas da IURD) na Record

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    1. Daniel, Topíssima é interessante. Ao mesmo tempo em que tem humor e leveza, tem um núcleo policial que eu acho meio "pesado". Uma mistura que poderia ser estranha, mas que está funcionando até aqui. Vamos ver.

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  3. Superou expectativas, ao menos nesses primeiros momentos. A trama é boa o elenco bacana tbm. Tem toda a cara de novela das 19h mesmo é conta com uma autora competente. Acho apenas que está no horário errado. Deveria entrar no ar mais cedo evitando confronto com a já embalada Verão90.

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  4. Espero que essa novela sirva pra Record tirar a sinopse original de Pigmalião do Brejo da gaveta

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    1. Mateus, pelo que sei, Pigmalião do Brejo foi engavetada definitivamente. Pena!

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