terça-feira, 29 de maio de 2018

História da TV: em 2000, Sula Miranda foi a Ana Maria Braga da RedeTV

"Além de caminhão, eu também
 já pilotei fogão!"
Com a exibição do reality show Os Gretchens, mostrando a vida de Gretchen e sua família no Multishow, a apresentadora e cantora Sula Miranda, irmã dela, voltou aos holofotes. Considerada a “rainha dos caminhoneiros” (em tempo: esta pauta foi pensada antes da greve), Sula fez sucesso cantando aventuras na boleia e também apresentando programas sertanejos na televisão, sobretudo nos anos 1990, com passagens pela Record, SBT e Manchete. O que poucos se recordam é que Sula também teve seu tempo à frente de um típico programa feminino. Tratava-se do Elas, apresentado pela RedeTV de segunda a sexta-feira, das 12h30 às 14h30, entre 2000 e 2001.

Elas surgiu quando a RedeTV nem ao menos tinha completado um ano de vida. Naquela época, Sonia Abrão começava a despontar como um nome forte das tardes da televisão brasileira no comando do vespertino A Casa É Sua. O programa, originalmente, havia estreado em novembro de 1999, pelas manhãs e com a apresentação de Valéria Monteiro, mas migrou para a tarde pouco tempo depois, abrindo o espaço matinal para concessionários. Na época, Valéria Monteiro morava nos EUA, e aceitou o convite para comandar o programa ao fazer um acordo no qual ficaria apenas três meses no Brasil. Depois disso, passaria a ser correspondente internacional do canal, enquanto a emissora devia procurar outra apresentadora para o A Casa É Sua.

Mas, três meses depois, a RedeTV optou por terceirizar o A Casa É Sua, entregando sua produção à Câmera 5, que escalou Meire Nogueira, Castrinho e Sonia Abrão para a apresentação. Logo, o jornalismo de celebridades de Sonia se destacou, e ela passou a comandar o programa sozinha. E os resultados agradaram a direção da RedeTV, ao ponto de o canal considerar buscar novas parcerias para a realização de programas. Na época, em entrevista à Folha de S. Paulo, o então diretor artístico da emissora, Rogério Gallo, afirmou que pretendia fazer mais programas terceirizados, mas que mantivessem “a cara” do canal. Neste contexto, surgiu a necessidade de fazer um novo programa matinal, e a Câmera 5 entrou em cena com um novo projeto. Surgia o Elas.

Elas foi concebido para ocupar a faixa matinal, das 10h ao meio-dia. Já que o A Casa É Sua tinha uma pegada mais “jornalística”, o Elas deveria ir na contramão: seria um feminino bem tradicional, com dicas de saúde, moda, culinária e artesanato. A Câmera 5 cogitou vários nomes para comandar o programa, como o de Aparecida Liberato, mas acabou optando por Sula Miranda. Na época, a cantora e apresentadora era casada com Osmar Gonçalves, sócio da produtora. A estreia do programa foi adiada algumas vezes, até que a RedeTV desistiu de exibi-lo pelas manhãs, optando por seguir vendendo o horário. Assim, Elas foi realocado para a faixa das 12h30, ocupando o horário anteriormente destinado à sessão de filmes TV Magia. Elas, então, passou a anteceder o A Casa É Sua na grade da emissora. O programa estreou no dia 21 de agosto de 2000.

Enquanto ficou no ar, Elas não fugiu da fórmula clássica dos femininos, com muita conversa ao vivo e receitas. Mas o programa não decolou. Saiu do ar no ano seguinte, sendo substituído pelo Altos Papos, um programa juvenil apresentado por Nani Venâncio, que tinha acabado de deixar a Record, onde comandava o Questão de Opinião no mesmo horário. Assim como Elas, Altos Papos também era uma produção da Câmera 5. E, assim como Elas, também teve vida curta. Saiu do ar pouco tempo depois da estreia, tendo seu horário ocupado pelo A Casa É Sua, que foi espichado e passou a ir ao ar das 13h às 18h.

Reveja trecho do Elas:




André Santana

sábado, 26 de maio de 2018

"As Aventuras de Poliana" surpreende no SBT

"A vida é bela!"

No ar há pouco mais de uma semana, a novela As Aventuras de Poliana, nova produção do horário nobre do SBT, tem tudo para figurar entre os sucessos do canal, desde que passou a apostar na dramaturgia infantil. A trama de Iris Abravanel, inspirada na obra Pollyana, de Eleanor H. Porter, vem mostrando fôlego suficiente para repetir, ou até ampliar, o êxito de suas antecessoras, Carrossel, Chiquititas, Cúmplices de um Resgate e Carinha de Anjo, esta última ainda no ar com a exibição de seus últimos capítulos.

As Aventuras de Poliana conta a história da personagem-título, vivida por Sophia Valverde (que, aliás, está se saindo muito bem). A menina perde os pais e vai morar na casa da tia amarga, Luísa (Milena Toscano), onde passa a comer o pão que o diabo amassou. No entanto, a menina mantém o otimismo ao ensinar a todos o “jogo do contente”, que aprendeu com os pais, e que consiste em enxergar o lado bom de todas as coisas. Com isso, irá transformar a vida da tia e de todos que a cercam, incluindo aí professores e alunos da escola Ruth Goulart, onde se passa boa parte da história.

A trama, nestes primeiros capítulos, mostra que o SBT segue avançando tecnicamente na produção de suas novelas. Os cenários estão caprichados, a fotografia mantém o lúdico sem perder de vista a modernidade, e, surpreendentemente, há muito mais cenas externas, se comparada às antecessoras. Além disso, a produção reuniu um bom elenco: Dalton Vigh (Sr. Pendleton), Milena Toscano, Clarisse Abujamra (Glória), Mylla Christie (Verônica), Marat Descartes (Durval) e Myrian Rios (Ruth), entre outros, dividem a cena com “pratas da casa”, como Lisandra Parede (Débora) e Pedro Lemos (Waldisnei). Além disso, traz ainda Larissa Manoela (Mirela), uma das principais estrelas adolescentes da emissora.

Além da produção mais caprichada, outra característica de As Aventuras de Poliana evidencia seu caráter mais ambicioso. Pela primeira vez desde que passou a investir em produções infantojuvenis, o SBT está apostando numa história que ainda não foi testada em sua própria programação. Isso porque Carrossel, Chiquititas, Cúmplices de um Resgate e Carinha de Anjo foram novelas que já tiveram versão exibidas pela emissora anteriormente, e todas bem-sucedidas em suas épocas de exibição. Seus remakes, então, eram apostas mais certeiras, praticamente à prova de erros.

As Aventuras de Poliana é baseada no romance clássico de Eleanor H. Porter. Ou seja, pela primeira vez em sua já longa carreira como novelista, Iris Abravanel não se baseia numa novela já pronta, como aconteceu também nas tramas adultas Vende-se um Véu de Noiva e Corações Feridos (sua única novela original foi Revelação, de 2008/09). Agora, a autora se aventura em transformar um livro numa telenovela. Pollyana já teve versões feitas para o cinema e a TV anteriormente, incluindo uma novela nos tempos de TV ao vivo, exibida na Rede Tupi no final dos anos 1950 e com apenas 30 capítulos, mas é a primeira vez que o livro se torna uma novela no formato como a conhecemos.

Sem dúvidas, Iris Abravanel e sua equipe de redatores adquiriram um traquejo interessante na elaboração de tramas infantis ao adaptarem Carrossel, Chiquititas e as demais obras. No caso desta segunda, atualmente sendo reprisada, a redação nacional conseguiu até corrigir alguns rumos equivocados da obra original, ao dar mais unidade aos personagens e às tramas que os envolviam. Por isso mesmo, têm experiência para dar mais musculatura à obra literária ao qual se baseiam agora, criando tramas paralelas que conversam bem com o público ao qual a novela se destina.

Claro, a experiência com tramas latinas imprime em Poliana um ar um tanto mexicano, com muito maniqueísmo e pouco espaço para nuances. A protagonista é otimista, ok, mas surgir sorrindo e saltitante após perder os pais foi um pouco de exagero. E toda a estrutura da novela lembra um pouco as novelas mexicanas com órfãs, como a clássica Chispita, onde a menina vivida pela atriz Lucero passa por maus bocados quando é adotada por uma família ricaça, até transformar a todos com sua graça (qualquer semelhança é mera coincidência?).

Mesmo assim, no saldo geral, As Aventuras de Poliana agrada, e a opção por fugir de adaptações de novelas já conhecidas abre um interessante precedente. O sucesso da novela pode encorajar Iris Abravanel (ou até Leonor Correia, autora de Carinha de Anjo) a propor obras 100% originais como próximas produções. Seria bem legal.

André Santana

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Globo terá novo programa com nome horrível

"Vem aí um programa 'topzêra'!"
Foi dito anteriormente que o Estrelas, de Angélica, seria extinto para abrir espaço a programas de temporada, como os que são exibidos no início das tardes de domingo na Globo. A série As Matrioskas, com Glenda Kozlowski abriu os trabalhos, e um novo musical estava previsto para assumir o horário após o Mundial. E, nesta semana, a emissora começou a divulgar seu novo produto, que ganhou o singelo nome de SóTocaTop.

Apresentado por Fernanda Souza e Luan Santana, o novo programa será uma espécie de parada musical, onde serão exibidos diversos estilos e canções. Segundo release divulgado pela emissora, a atração apresentará rankings semanais dedicados exclusivamente aos sucessos atuais da música nacional, "que contemplará o que é mais ouvido nas rádios e também na internet. A cada semana, artistas de diferentes gêneros e estilos passarão pelo palco, que abrirá também espaço para novidades e lançamentos de quem está despontando no cenário musical".

Um casal apresentando uma parada musical semanal na Globo? Sim, já vimos isso antes. A proposta parece uma versão moderna do clássico Globo de Ouro, programa no qual nomes de expressão da música nacional e internacional passavam por um palco e animavam a plateia. Na condução, sempre um casal, e vários nomes passaram pela ancoragem, como César Filho, Isabela Garcia e Claudia Abreu. A atração também se caracterizava pelo texto espirituoso, com o casal sempre recitando trocadilhos engraçadinhos. O programa ficou no ar por anos a fio, e inspirou o Caldeirão de Ouro, especial de fim de ano do Caldeirão do Huck.

A ideia é inusitada porque, até pouco tempo atrás, havia um "mantra" rolando entre as emissoras de TV que afirmavam, categoricamente, que musicais não davam mais audiência. Programas como os de Chacrinha, o próprio Globo de Ouro, o Sabadão do SBT (que depois virou Disco de Ouro, em sua fase derradeira), ou até o Planeta Xuxa e o Canta e Dança Minha Gente, que eram programas essencialmente musicais, não fariam mais sucesso nos dias de hoje, portanto. Até mesmo programas de auditório de variedades reduziram o espaço para música. Reparem que os artistas que se apresentam atualmente nem ao menos têm sua música executada na íntegra. Sendo assim, o novo SóTocaTop veio para nadar contra a maré, e provar (ou não) que música na TV ainda funciona. Será?

Tá tudo muito bem, mas... gente, que nome horrível é esse que deram para este novo programa? SóTocaTop parece um trava-línguas sem graça e sem sentido. Nome de gosto duvidosíssimo, que nem parece título de programa da Globo. Esperamos que o programa não seja tão ruim quanto o nome dele.

André Santana

quinta-feira, 24 de maio de 2018

"Chaves" no Multishow é diversão para os "fãs raiz" da série

"As pessoas boas devem
amar seus inimigos"
Nesta semana, o Multishow começou a exibir as clássicas séries Chaves e Chapolin, consagradas no Brasil pela constante exibição no SBT. Com status de estrelas cult, as duas produções dos anos 1970 estrearam na nova emissora com pompa, tendo direito a regalias raras na televisão, em se tratando de um produto importado. Isso porque o canal da Globosat optou por atender aos fãs, fazendo um planejamento de exibição que vai ao encontro do que o espectador deseja.

Exibidos no Brasil desde os anos 1980, Chaves e Chapolin cultivaram fãs que, hoje, já se aproximam dos 40 anos de idade. Ou seja, há um grande grupo de jovens adultos que cresceram vendo as geniais criações de Chespirito na televisão. Assim, tornaram-se fãs atentos e exigentes, que muito se aborreceram com o pouco caso da TV de Silvio Santos com a série, sobretudo depois dos anos 2000.

Chaves passou a circular por horários variados, tendo sua exibição diária constantemente cancelada. Além disso, o canal engavetou vários episódios, sem maiores explicações. Com Chapolin, a coisa foi ainda pior: a série do herói vermelho deixou a grade, retornando algumas poucas vezes, e sempre em temporadas rápidas. Além disso, os episódios das séries sempre foram exibidos em ordem aleatória, e muitos deles com cortes.

Percebendo um nicho de fãs das séries, o Multishow foi esperto ao adquirir os direitos das produções e basear sua exibição na opinião deles. Decisão tomada num momento em que o canal investe bastante em humor, com humorísticos nos mais variados estilos (alguns, inclusive, com um padrão popular que não tem mais espaço nem na TV aberta). Ou seja, exibir um produto clássico e com ares de cult fazia todo o sentido.

O canal, então, mirou nestes fãs, fazendo uma inédita exibição em ordem cronológica, respeitando, inclusive, as aberturas e créditos originais, sempre ignoradas pelo SBT. Além disso, trouxe muitos episódios inéditos no pacote, surgindo aí a necessidade de nova dublagem, que também foi feita baseada nas vontades dos fãs, resgatando todos os dubladores originais que estão vivos. Melhor ainda: adquiriu os direitos das músicas de fundo que fazem sucesso na exibição do SBT, com a clássica dublagem da Maga, tudo para deixar os “novos” episódios os mais próximos possíveis dos antigos.

Ou seja, ao contrário do SBT, que ainda mira as crianças, o Multishow está promovendo uma exibição segmentada, voltada a um público jovem adulto que ainda se diverte com os personagens de Roberto Gómez Bolaños. O cuidado e a pesquisa dispensados pelo canal para a promoção e exibição de Chaves e Chapolin estão sendo feitos de modo que ninguém há de botar defeito. Sem dúvidas, o canal acertou em cheio.

André Santana

sábado, 19 de maio de 2018

"Segundo Sol" estreia em clima de "Da Cor do Pecado"

"Minha música estará no próximo
'Axé Bahia'!"

Estreia da semana na Globo, a novela Segundo Sol parece promissora. Após uma novela mais ambiciosa, A Regra do Jogo, que não foi muito bem aceita por parte do público, o autor João Emanuel Carneiro resolveu apostar num folhetim clássico, um dramalhão familiar para ninguém botar defeito. E o que se viu na tela foi uma história com clima bastante semelhante a Da Cor do Pecado, primeira novela do autor, exibida no horário das 19 horas em 2004. Segundo Sol tem o mesmo clima quente e colorido da história de Preta (Taís Araújo), além de também ser focada em relações familiares.

O ponto de partida foi bem interessante. Beto Falcão (Emílio Dantas) é um cantor de axé com a carreira em baixa, que se vê fazendo sucesso quando é dado como morto. Ele, então, é convencido pelo irmão do mal Remy (Vladimir Brichta) a manter a farsa e se esconder num lugar remoto. Neste lugar, ele conhece Luzia (Giovanna Antonelli), se apaixona por ela e decide se casar e acabar com a farsa de sua morte. Karola (Deborah Secco), sua ex-namorada e amante de Remy, entra em cena e, com a ajuda de Laureta (Adriana Esteves), arma um plano maléfico para separar o casal. Luzia, então, é enganada e passa a sofrer horrores.

Segundo Sol teve uma primeira semana feliz. Os primeiros episódios, focados na “morte” e “ressurreição” de Beto, foram bem armados e interessantes. Foi bem divertido ver a comoção que a morte de Beto causou, logo depois de um carnaval onde praticamente ninguém compareceu ao seu trio elétrico. Ou seja, num instante, Beto passou do ostracismo para a fama absoluta. A situação ficou ainda mais divertida quando apareceu um diretor de TV mandando um programa continuar falando da morte de Beto porque estava “dando audiência”.

Trata-se de uma situação que poderia soar completamente absurda, se não encontrasse ecos na realidade. É possível encontrar mais de um exemplo na vida de real de situação semelhante e, por isso mesmo, causou imediata identificação na audiência. O autor, então, fez uma brincadeira com a vida real para apresentar sua trama principal que funcionou muito bem. Além disso, contou com inspirado Emílio Dantas, que vem fazendo um ótimo trabalho como este herói meio ingênuo e imaturo, sem cair na chatice.

Passado o drama da morte de Beto, a saga de Luzia passou a dominar a cena, revelando que é a mocinha a grande protagonista de Segundo Sol. Quando os holofotes foram voltados para a humilde marisqueira, ganhou força a dupla de vilãs Karola e Laureta, que envolveram a mocinha numa série de artimanhas para separá-la de Beto e, de quebra, roubar o filho dela. Luzia, então, verá sua vida completamente despedaçada com os planos das malvadas. Cabe também destacar o trabalho das atrizes envolvidas: Giovanna Antonelli é uma mocinha graciosa, Deborah Secco está ótima de menina malvada, e Adriana Esteves criou uma vilã bem interessante, e que nada tem a ver com a Carminha de Avenida Brasil.

Paralelamente, Segundo Sol conta a história do motorista Roberval (Fabrício Boliveira) e seu patrão Edgar (Caco Ciocler), que são irmãos, mas não sabem disso. Eles vivem uma relação de amizade, que é abalada pelo abismo social que os separa, e também pela chegada de Cacau (Fabíula Nascimento), que desperta o interesse de ambos. Uma história que também promete bons momentos.

Ou seja, Segundo Sol é um folhetim despudorado, e na sua melhor forma. João Emanuel Carneiro consegue, a partir de uma premissa simples, criar situações instigantes, que vão envolvendo o espectador. Além disso, é mestre na arte de criar ganchos (talento que fez boa parte da audiência de Avenida Brasil, sua obra mais famosa), convidando o público a retornar no dia seguinte. Até aqui, o convite tem sido aceito. Além disso, tem um texto limpo e espirituoso, que não é complicado, mas, ao mesmo tempo, respeita a inteligência do público. Passa longe do didatismo e carrega uma ironia saborosa. E que se potencializa com a direção esperta de Dennis Carvalho e Maria de Médicis, além da vitoriosa trilha sonora repleta de reedições de clássicos da música popular.

O clima praiano da Bahia de Segundo Sol ajuda a remeter à Da Cor do Pecado. Sendo assim, não falta quem diga que a atual trama das nove tenha cara de novela das sete. O que não me parece totalmente verdade. Segundo Sol lembra, sim, Da Cor do Pecado, mas se levarmos em consideração que Da Cor do Pecado era um dramalhão familiar repleto de relações densas, acho que o mais correto seria dizer que Da Cor do Pecado poderia ser uma novela das nove. Além disso, a segunda fase de Segundo Sol promete abordar prostituição, drogas e outros assuntos mais pesados, mas sem perder de vista o folhetim, o que lhe conferirá a musculatura de uma novela das nove.

O maior problema de Segundo Sol é realmente a falta de representatividade. Claramente, faltam atores negros em cena numa história passada na Bahia. Trata-se de um problema antigo das novelas brasileiras em geral, mas que ganhou força nesta produção situada em Salvador. O lado bom disso é que a discussão foi levantada e espera-se que, a partir de agora, atores negros realmente ganhem mais espaço na televisão brasileira. Já passou da hora de isso acontecer. No mais, Segundo Sol é uma novela de qualidades, que tem tudo para manter a boa fase de audiência do horário.

André Santana

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Taís Araújo é a nova apresentadora do "Popstar"

"Sou Penha, sou Michele Brau,
sou Popstar!"

Competição de cantores e bandas com participantes famosos, o programa Popstar chegará à segunda temporada na Globo. Com estreia prevista para depois da Copa do Mundo, o talent show terá uma mudança de rota nesta nova leva: sai Fernanda Lima e entra Taís Araújo no comando da atração. Não se sabe ainda se Tiago Abravanel seguirá como repórter de bastidores (leia-se apresentador de merchans).

Segundo o site Notícias da TV, a direção da Globo justificou que a troca tem a ver com um conflito de agendas de Fernanda Lima. Isso porque a apresentadora emplacará uma nova temporada do Amor & Sexo, que será exibido no segundo semestre. E as gravações do programa noturno coincidirão com o Popstar, impossibilitando a apresentadora de acumular função. Sendo assim, Fernanda ficará apenas com o Amor & Sexo (que, imagino, irá ocupar a vaga anteriormente destinada ao Adnight Show, ou seja, o programa de Marcelo Adnet não deve mesmo voltar).

A justificativa da Globo até que faz sentido. Mas, provavelmente, não se trata do único motivo. Afinal, o anúncio da troca foi feito enquanto segue dando o que falar a escalação de elenco de Segundo Sol, uma novela que se passa na Bahia, mas tem pouquíssimos atores negros no elenco. Em razão da imensa discussão em torno do assunto, a Globo chegou a fazer um mea-culpa, dizendo que iria se movimentar no sentido de aumentar a representatividade negra em sua programação.

Sendo assim, a escolha de Taís Araújo para ficar com a vaga de Fernanda Lima não é por acaso. Com a chegada de Taís Araújo à apresentação do Popstar, a Globo terá uma de suas primeiras apresentadoras de entretenimento negras. Antes dela, apenas Aline Prado chegou a ocupar função semelhante, ao apresentar o Vídeo Show em algumas oportunidades. Camila Pitanga também pode ser incluída nesta pequena lista, pois apresentou várias edições do musical Som Brasil.

Ao menos, a Globo parece disposta a cumprir com a responsabilidade de aumentar a representatividade negra em sua programação. E a escolha de Taís Araújo, embora não tenha sido a mais óbvia (ela chegou a se aventurar como apresentadora, mas sua função na telinha sempre foi mais como atriz), é bem interessante. Taís é simpática, tem presença de palco e atitude, e deve render como apresentadora de um programa como o Popstar. Pena que Fernanda Lima tenha perdido seu já pouco espaço na grade da emissora, mas, ao menos, ganhou uma boa substituta.

André Santana

terça-feira, 15 de maio de 2018

"Poder em Foco" não tem a cara do domingo do SBT

De frente com Debby
No ar há duas semanas, Poder em Foco é o novo programa de entrevistas do SBT, exibido aos domingos, depois do Programa Silvio Santos. A atração apresentada pela jornalista Débora Bergamasco recebe, a cada edição, um convidado, que é entrevistado pela apresentadora e por mais três jornalistas. Ou seja, é uma mistura de Canal Livre, da Band, com toques de Roda Viva, da Cultura.

O título do programa e seu primeiro convidado, o presidente Michel Temer, passaram ao espectador a impressão de que Poder em Foco seria um programa essencialmente político. Porém, em sua segunda edição, o programa recebeu o oncologista Dr. Paulo Hoff, que falou sobre o trabalho do Instituto do Câncer de São Paulo e os diferentes tipos de tratamento do câncer. Ou seja, se mostrou um programa de entrevistas mais abrangente.

O SBT foi ousado com a novidade. Abriu mão de uma faixa de reprises que, embora tenha resgatado bons programas do baú da emissora, tinha um acervo limitado de repetecos, já que exibia apenas programas de humor; e deu espaço a uma nova produção. Além disso, resgatou a tradição dos talk shows do fim da noite de domingo, aberta por Marília Gabriela e seu inesquecível De Frente com Gabi. O programa de entrevistas da jornalista teve três fases distintas na faixa após o Silvio Santos, e todas elas muito bem-sucedidas. Num de seus hiatos, foi substituída por Mônica Waldvogel, que comandou o esquecido Dois a Um, em 2004, que também era muito interessante.

Ou seja, assistir a uma boa entrevista depois das brincadeiras de Silvio Santos foi um hábito que o SBT acabou cultivando no seu espectador. No entanto, Poder em Foco não parece o formato mais adequado para o horário. Nos tempos de Marília Gabriela, o espaço mesclava bem os convidados, e muitas figuras populares enfrentavam o “pinga-fogo” da jornalista. Com artistas mais conhecidos, o De Frente com Gabi conseguia herdar parte do público de Silvio Santos, fazendo uma transição mais harmônica.

O mesmo não acontece com o Poder em Foco. O tom demasiadamente sério do programa contrasta com a alegria do programa do dono do SBT, que o antecede. Ficou um papo sério demais, num horário em que o espectador busca relaxar para dormir e enfrentar a semana. Além disso, Poder em Foco tem um formato que sugere um debate de ideias, mas, na prática, revelou-se chapa-branca demais. Acaba ficando arrastado, o que é ruim para um programa que tem o desafio de manter seu espectador acordado.

É louvável que o SBT aposte num novo programa de entrevistas. Mais louvável ainda é a emissora dar mais espaço ao seu jornalismo, demonstrando um compromisso raro com a informação. No entanto, a temática da nova atração e seu horário de exibição poderiam ter sido mais bem escolhidos. Apesar dos problemas, no geral é um bom programa, mas está em dia errado.

André Santana

sábado, 12 de maio de 2018

Walcyr Carrasco não entendeu os críticos: "O Outro Lado do Paraíso" foi criticada porque era ruim!

"Me beija e vamos embora, porque
essa novela não fez o menor sentido!"

Criticada pela maioria dos colunistas especializados do início ao fim, O Outro Lado do Paraíso terminou ontem, 11, sem surpreender e com direito à defesa de seu autor, Walcyr Carrasco. O novelista declarou que a crítica não entendeu sua novela, pois os críticos esperavam realidade numa novela que nunca quis ser realista. Nas palavras dele, O Outro Lado do Paraíso resgatou o folhetim clássico, com agilidade e reviravoltas, abusando da fantasia e sem compromisso com a realidade. OK, direito dele defender a sua obra e varrer para debaixo do tapete inúmeras incongruências que marcaram a saga de Clara (Bianca Bin).

Claramente inspirada em O Conde de Monte Cristo, O Outro Lado do Paraíso contou mais uma história de mocinha vingativa no horário nobre. Dona de terras de onde brotavam esmeraldas, Clara foi vítima da vilã Sophia (Marieta Severo), que juntou uma gangue para botar em prática um plano para conseguir aquelas terras para ela. Tratou de casar Clara com seu filho Gael (Sergio Guizé) e, depois, uniu-se à filha Lívia (Grazi Massafera), o psiquiatra Samuel (Eriberto Leão), o delegado Vinícius (Flavio Tolezani) e o juiz Gustavo (Luís Mello) para fazer com que Clara fosse considerada louca e trancafiada num hospício. Lá, a mocinha passa dez anos tendo aulas de etiqueta com Beatriz (Nathalia Thimberg), se torna herdeira da elegante senhora e sai de sua prisão rica, chique e com sede de vingança.

Com a ajuda de Patrick (Thiago Fragoso), sobrinho de Beatriz e melhor advogado criminalista do país (mas que não foi capaz de tirar sua tia do hospício, onde também foi trancafiada injustamente), e Renato (Rafael Cardoso), o mocinho/vilão sem sutileza, Clara começa a se vingar de todos. Um de cada vez, para fazer render os meses de novela. E coloca em prática planos bem mal elaborados: na verdade, Clara não foi capaz de orquestrar grandes vinganças. Apenas se aproveitava de situações que caíam no seu colo.

Ela descobriu que Samuel era homossexual que escondia sua condição, e tratou de “arrancá-lo do armário”. Ele se sentiu humilhado numa tarde, mas à noite já estava saindo para jantar com o namorado Cido (Rafael Zulu). Seguiu exercendo a medicina e tocando sua vida. Já para se vingar do juiz Gustavo (Luís Mello), a mocinha simplesmente deduziu que ele era o dono misterioso do bordel de Pedra Santa. Ele foi desmascarado e deixou de ser juiz, mas ficou por isso mesmo. Seus outros crimes foram esquecidos. A vingança principal, que seria contra Sophia, também foi fraca. Ela simplesmente descobriu seus assassinatos e a denunciou. Com Vinícius, o plano de vingança também veio a partir de uma dedução: ela conheceu a enteada dele, Laura (Bella Piero) e imaginou que ela tivesse sido vítima de abuso do padrasto. Ao menos, ele teve punição à altura: foi descoberto, julgado e condenado pelos seus crimes. Acabou assassinado na cadeia.

Enquanto Clara se preocupava em derrubar os cúmplices de Sophia, ela deixou o caminho livre para que a vilã se tornasse uma serial killer pra ninguém botar defeito. Com isso, mais uma situação sem sentido surgiu em O Outro Lado do Paraíso: se Sophia era capaz de matar com tanta frieza, por que diabos a vilã preferiu jogar Clara num hospício, de onde ela poderia sair e simplesmente acabar com a festa dela, ao invés de simplesmente matá-la a tesouradas? Claro, se ela fizesse isso não haveria novela, mas são estas contradições no perfil dos personagens que enfraqueceram a argumentação do enredo.

Além da história de Clara, O Outro Lado do Paraíso tinha uma outra história principal forte, a saga de Beth (Gloria Pires). Acusada de ter assassinado o amante Renan (Marcello Novaes), ela é obrigada pelo sogro do mal Natanael (Juca de Oliveira) a forjar sua própria morte. Tornando-se Duda, ela se entrega ao vício do álcool e, mais adiante, torna-se sócia do bordel de Pedra Santa. É quando ela descobre ser a mãe de Clara. No entanto, depois disso, sua história cai vertiginosamente, tornando-se um remendo estranho. Duda descobre que Renan não morreu, reencontra a família, volta a ser Beth, mas é rejeitada pela filha Adriana (Julia Dalávia), e seu alcoolismo retorna com força. Mesmo assim, ela se cura quase milagrosamente e se torna coadjuvante de luxo.

A novela também pecou quando tentou fazer merchandising social. Gael batia na esposa Clara, no início da história, mas se redimiu e teve direito a final feliz. Ou seja, reforçou a impressão de que as mulheres oprimidas por seus maridos violentos podem esperar uma mudança de comportamento. A saga de Estela (Juliana Caldas), que trataria do interessante tema do nanismo, não funcionou, já que a história dela enveredou para um triângulo amoroso sem graça e aborrecido. A pedofilia teve um bom espaço, mas a abordagem quase botou tudo a perder ao passar a mensagem de que o trauma de Laura poderia ser curado com sessões de couch (?). Isso sem falar no reforço ao preconceito contra homossexuais no pretenso núcleo de humor de Samuel. Sem graça nenhuma e um desserviço.

E tudo isso regado a diálogos pobres, inacreditavelmente didáticos e sem nenhuma sutileza. Tudo era dito na base do grito, com frases cortantes feitas sob medida para chocar. Assim, os personagens caíam numa caricatura rasa, como a racista Nádia (Eliane Giardini), que bradava aos quatro cantos que não era racista, mas repetia frases racistas à exaustão. Nádia era uma racista caricata, sem sutileza, feita para chocar. E deixou de ser racista num passe de mágica, numa das muitas soluções fáceis propostas pelo autor ao longo da novela. A mesma sutileza faltou em Renato. Quando era mocinho, estava sempre com uma cara tediosa e monocromática. Quando se revelou vilão, nunca mais se desfez do olhar de desdém, passando a maltratar todo mundo, até mesmo quem ele era amigo quando “bonzinho”.

O ponto forte de O Outro Lado do Paraíso foi mesmo sua estrutura narrativa, episódica, que foi capaz de promover vários pontos de clímax no decorrer da novela. As viradas, normalmente marcadas pela conclusão de uma das vinganças de Clara, mantinham o interesse da audiência lá em cima. Neste ponto, Walcyr Carrasco foi feliz, pois conseguiu contar várias histórias, mas mantendo uma linha narrativa principal, a vingança de Clara. Sem dúvidas, foram estas viradas que fizeram O Outro Lado do Paraíso o sucesso de audiência que foi.

Mesmo assim, isso não elimina seus inúmeros pontos fracos e sua irresponsabilidade no trato de temas importantes. Então, senhor Carrasco, não é que a crítica não entendeu sua proposta, o que aconteceu é que a crítica entendeu, mas não comprou sua pretensa intenção de resgatar o folhetim tradicional. Porque é possível fazer um folhetim tradicional sem cair na preguiça e no lugar-comum. E é possível se apaixonar por uma história de fantasia, desde que ela seja realmente uma fábula. Não se pode dizer que a novela é uma fantasia, mas, ao mesmo tempo, tentar discutir temas polêmicos e que estão na pauta da sociedade, e discuti-los porcamente, sem qualquer responsabilidade, sob a capa de que se trata de uma “fantasia”. Ou é uma fantasia, ou não é, não há meio termo. Foi isso que Walcyr Carrasco não entendeu.

André Santana

quinta-feira, 10 de maio de 2018

24 anos de "Castelo Rá-Tim-Bum", um dos melhores infantis de todos os tempos!

Eu também fui visitar minha
amiga Celeste no Castelo!
No dia 09 de maio de 1994, a TV Cultura de São Paulo colocava no ar sua mais grandiosa e ambiciosa produção infantil: o antológico Castelo Rá-Tim-Bum. Criado pelo autor Flavio de Souza e pelo diretor Cao Hamburger, o programa era exibido em horário nobre, na faixa das 19 horas, e alcançou excelentes índices de audiência, fazendo a Cultura brigar de igual para igual com as emissoras comerciais.

A trama era simples e encantadora. Passava-se num castelo localizado no centro de São Paulo, onde vivia uma família de feiticeiros. Nino (Cássio Scapin), o protagonista, era um aprendiz de feiticeiro de 300 anos de idade, que vivia com seus tios, o feiticeiro e inventor Doutor Victor (Sérgio Mamberti) e a bruxa Morgana (Rosi Campos). Sozinho e triste por não poder ir à escola, afinal nenhuma instituição aceitava um garoto de 300 anos, Nino resolve, então, lançar um feitiço numa bola e atrair três crianças para o castelo. Pedro (Luciano Amaral), Biba (Cinthia Rachel) e Zequinha (Freddy Allan), assim, chegam ao castelo e ficam amigos de Nino e dos demais moradores do lugar. Que eram muitos seres fantásticos, como a cobra Celeste, o monstro Mau, as botas Tap e Flap, as fadinhas Lana e Lara (Fabiana Prado e Theresa Athayde), a gralha Adelaide, o Gato Pintado, entre muitos outros.

Além destes, o Castelo ainda recebia muitos visitantes, como o extraterrestre Etevaldo (Wagner Bello), a personagem do Folclore Caipora (Patrícia Gaspar), a jornalista Penélope (Angela Dip) e o entregador de pizza Bongô (Eduardo Silva). Havia ainda um vilão, Doutor Abobrinha (Pascoal da Conceição), que vivia se disfarçando para enganar as crianças e tentar comprar o Castelo. Seu objetivo era destruí-lo, para construir no local um prédio de 100 andares!

Há muitos episódios memoráveis, como o já citado primeiro, quando Nino e as crianças se conhecem. Também são inesquecíveis os capítulos em que o Doutor Abobrinha surgia fantasiado de Bongô e Penélope. Também foram muito divertidos os episódios em que Nino deixa o Castelo, como aquele em que Morgana leva todos ao zoológico, ou quando Nino vai conhecer a fazenda dos pais de Bongô. E como esquecer do crossover com Glub Glub, quando Etevaldo leva o castelo para o fundo do mar, e Nino bate um papo com os peixinhos Glub e Glub (Carlos Mariano e Gisela Arantes), protagonistas de outro infantil da TV Cultura. Isso sem falar no episódio da festa de aniversário de 6000 anos de Morgana, um dos raros momentos em que todo o elenco aparece junto.

Assim como seu antecessor, Rá-Tim-Bum, produzido em 1990, o Castelo Rá-Tim-Bum era formado por uma série de quadros educativos e didáticos, que passavam noções de cores, números, formas, ritmo, higiene, meio ambiente, ciências, dentre vários outros assuntos. No entanto, enquanto o Rá-Tim-Bum original apresentava os quadros isoladamente, no Castelo todo o conteúdo era costurado pelas aventuras de Nino e seus amigos. Na verdade, a ideia inicial da TV Cultura era produzir novos episódios do Rá-Tim-Bum, e foi criado o núcleo do castelo como um segmento da nova leva. Mas, durante a pré-produção, o quadro cresceu e acabou se tornando o protagonista da atração, o que se revelou uma excelente ideia. Castelo Rá-Tim-Bum registrava média de 12 pontos no Ibope, chegando a picos de 14 pontos, excelentes índices para os padrões da Cultura.

O programa deu tão certo que se tornou uma febre entre as crianças da década de 1990, reproduzindo-se em diversos subprodutos. Foram lançados uma série de excelentes livros infantis, que contavam curiosidades dos personagens do Castelo (em O Álbum do Nino, por exemplo, o leitor descobre quem são os pais de Nino e porque eles não aparecem na série), um CD com a trilha sonora, fitas VHS com os episódios, produtos licenciados e até uma revista em quadrinhos bem divertida. Com o Castelo, a marca Rá-Tim-Bum se tornou uma grife, tornando-se o nome de uma terceira série infantil, a Ilha Rá-Tim-Bum, e também de um canal de TV, a TV Rá-Tim-Bum (que produziu outros infantis com o título, como o Teatro Rá-Tim-Bum).

Com um roteiro inteligente, atores maravilhosos e muita fantasia, o Castelo Rá-Tim-Bum conquistou o coração de seus fãs para sempre. Tanto que a exposição sobre a série realizada no MIS – SP, em 2015, e, depois, no Memorial da América Latina, atraem uma verdadeira legião de fãs, de todas as idades. Um programa tão delicioso que uma reprise é sempre bem-vinda. Castelo Rá-Tim-Bum é desses raros programas que são eternos, tanto na TV quanto no coração dos fãs.

André Santana

terça-feira, 8 de maio de 2018

História da TV: antes do "Estrelas", Angélica teve dois projetos engavetados na Globo

"Daqui uns dias eu volto a
mostrar meu angelical touch"
Há pouco mais de uma semana, foi ao ar o último Estrelas, o mais longevo programa da já também longeva carreira de Angélica na TV. Depois de 12 anos no ar, o programa de entrevistas exibido nas tardes de sábado abre espaço para novos projetos da Globo. Enquanto isso, Angélica aguarda seu destino no canal que, até segunda ordem, está nas mãos do diretor de gênero Ricardo Waddington. Há muitos boatos sobre uma nova atração, mas nada está confirmado até agora.

Estrelas foi uma antiga reivindicação de Angélica, que sonhava com um programa de temática adulta após sua saída da programação infantil. E demorou para sair. Foi em 2001, quando seu infantil Bambuluá ia mal das pernas, que a apresentadora resolveu tomar as rédeas de sua carreira e lutar por um programa para adolescentes. Na época, infeliz no infantil, a apresentadora pediu para deixar a atração e bateu o pé por um programa novo. A Globo, por outro lado, a queria substituindo Miguel Falabella no comando do Vídeo Show e participando de novelas. Sua presença em Um Anjo Caiu do Céu, quando viveu a “anjinha” Angelina, foi muito bem avaliada pela direção da emissora.

Mas Angélica não queria o Vídeo Show, e nem se tornar atriz de novelas. Foi aí que começou a receber propostas para mudar de canal. Quando declarações de sua infelicidade saíam na imprensa, seu telefone tocava. Márcia Marbá, sua irmã e que tocava seus negócios na época, declarou à revista Minha Novela que Angélica havia recebido uma proposta da Band, acenando a ela seu tão sonhado programa para adolescentes.

Neste contexto, a direção da Globo deu sinal verde quando Angélica solicitou a formatação de uma nova atração para o diretor de núcleo Jayme Monjardim. Parceiros dos tempos de Manchete, os dois fizeram juntos o Milk Shake, primeiro programa adolescente de Angélica. Monjardim, então, propôs um programa que misturasse dramaturgia e viagens, que seria exibido nas tardes de sábado, logo depois do Caldeirão do Huck (na época, a atração de Huck ia ao ar das 14h30 às 16h). No entanto, segundo matéria da revista IstoÉ Gente de junho de 2001, o projeto de Monjardim acabou vetado pela Globo. Assim, Angélica recorreu a Boninho, que idealizou dois projetos e teve um deles aprovado: um programa de variedades que misturaria jogos, entrevistas, temas sociais e musicais. Mas o projeto acabou adiado sem maiores explicações.

O que veio mesmo foi o convite para comandar o Vídeo Game, um novo quadro do Vídeo Show. Projeto que passou às mãos de Susana Werner, Miguel Falabella e até Ivete Sangalo, a nova atração foi entregue à Angélica, que assinou uma extensão de contrato com a Globo de apenas três meses para avaliar se ia gostar da nova missão. Ou seja, a loira recusou o comando do Vídeo Show, mas acabou indo parar no vespertino, num formato que tinha mais a sua cara, um game de auditório. Feliz no formato, Angélica assinou novo acordo com a Globo e permaneceu na emissora, sendo convidada também para apresentar o reality show musical Fama. Foram quatro temporadas, exibidas entre 2002 e 2005, e que culminaram com novo adiamento de seu projeto solo. Ainda em 2005, sinalizou-se que a atração finalmente sairia da gaveta, mas a gravidez da apresentadora fez com que os planos fossem novamente alterados.

Em 2006, o projeto finalmente saiu, mas foi completamente reformulado. Ao invés de uma atração de variedades, Boninho formatou um talk show cuja proposta era ser uma espécie de “Caras eletrônica”. Nascia o Estrelas. Agora, com a atração fora do ar, Angélica está novamente em compasso de espera. O que será que aguarda a loirinha que cresceu em frente às câmeras de TV?

André Santana

sábado, 5 de maio de 2018

Nova programação da Band não empolga

"Não tô a cara do Faustão?"

Em 2018, o canal que mais lançou novidades em sua programação foi a Band. Depois de anos com a grade sucateada, entregue a enlatados, caça-níqueis e religiosos, a emissora dos Saad fez uma série de investimentos para tentar recuperar sua saúde financeira, abalada em razão de vários equívocos realizados nos últimos anos. Foram muitas as novidades do ano: Amaury Jr., Melhor da Tarde, Superpoderosas, Vídeo News, Cozinha do Bork, Agora É com Datena e Show do Esporte foram os principais lançamentos da temporada.

Entretanto, passada a euforia da estreia, o que se vê hoje é que nenhum dos programas conseguiu refrescar a situação da emissora. Os primeiros lançamentos marcaram o retorno de Amaury Jr ao canal que o consagrou e a contratação barulhenta de Catia Fonseca, que vinha há anos fazendo um bom trabalho nas tardes da Gazeta. Suas estreias não são propriamente campeãs de audiência, mas, dentre os lançamentos, são os que têm os resultados menos ruins. Amaury nunca foi sinônimo de Ibope, então é pouco provável que a emissora esperasse mais dele.

 E Catia ocupa um novo horário numa emissora sem tradição em femininos, além de ter apostado num formato bem antigo para os padrões atuais da TV aberta. Mas ela trouxe faturamento e seu Melhor da Tarde já vem sofrendo alterações para tentar atrair mais público. Nos últimos dias, o que se viu foi a diminuição dos colaboradores de pautas diversas do programa e o aumento do espaço do quadro Roda dos Famosos, uma variação da Roda da Fofoca do A Tarde É Sua, da RedeTV. Se vai funcionar ou não, só o tempo dirá, mas o programa está tentando melhorar com as armas que tem.

Situação pior é o do Superpoderosas. O matinal comandado por Natália Leite foi uma aposta ousada da Band, que optou por produzir um feminino com um formato diferente do que normalmente se faz, focando mais na informação de qualidade voltada à mulher contemporânea, em detrimento das culinárias e artesanatos dos similares. Ou seja, a Band fugiu da tentação de fazer um Melhor da Tarde matinal, o que já é uma coisa boa. Entretanto, a emissora pecou por segmentar demais o público-alvo do Superpoderosas, que é voltado a um recorte pequeno da gama de espectador. Ou seja, não é um programa popular. Para angariar mais público, Superpoderosas terá que abrir o leque de assuntos tratados, bem como a maneira de tratá-los. Natália Leite é ótima, e o programa não é ruim, mas seu alcance, infelizmente, é limitado.

No final de semana, a coisa também não está indo bem. A Band promoveu uma reformulação total de seus domingos, entregando a José Luiz Datena e Milton Neves dois novos programas de auditório. E o Agora É com Datena estreou com o mesmo problema do Melhor da Tarde: é um programa novo com cara de velho. No passado, os programas de auditório mais tradicionais eram enormes e ocupavam seu espaço com musicais a rodo e outros quadros variados. Isso não existe mais. Os novos programas de auditório se mantêm com uma edição clipada e muitas atrações fora do palco, com externas e até reality shows.

Pois Agora É com Datena ignorou isso ao oferecer um programa de auditório de seis longas horas e muita conversa jogada fora no palco com Datena e seus convidados. Com isso, o programa pareceu extremamente cansativo. A atração de Datena só ganha fôlego quando entra no ar o quadro A Fuga, um game show que encerra a atração. A diferença no tom é tão grande que parecem dois programas diferentes.

E o Show do Esporte não fica atrás. Aliás, a atração de Milton Neves pode ser considerada o maior erro dentre os últimos lançamentos da Band. Isso porque a emissora abriu mão do bem-sucedido Terceiro Tempo, que registrava ótima audiência e promovia um debate esportivo que agradava os fãs do gênero, para apostar num híbrido de esportivo e auditório que parece atirar para todos os lados, mas acaba não acertando ninguém. Show do Esporte é quase um programa “Frankenstein”, que faz uma colagem dos maiores clichês dos auditórios dominicais, mas com o verniz do esporte. Assim, é visto como esportivo demais para quem gosta de programas de auditório, e show demais para quem prefere um esportivo. Milton Neves é um baita comunicador, sem dúvidas, mas a Band o está usando errado.

Enquanto isso, Cozinha do Bork segue com a mesma falta de expressão dos últimos 487 programas comandados pelo intocável Daniel Bork. E o Vídeo News não emplaca em razão de sua total falta de investimento: sua intenção é boa, mas falta conteúdo. Assim, no frigir dos ovos, a única apostar certeira da temporada foi a faixa Música na Band, que nada mais é que a exibição de shows prontos. Sintomático.

André Santana

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Viva picota "Bebê a Bordo" e frustra fãs

"Me leva de volta pra 1988, pufavô!"
O canal Viva surpreendeu negativamente seu público ao usar de um expediente inédito em sua história de oito anos no ar: editar as reprises de novela. Bebê a Bordo, clássico de Carlos Lombardi, está sendo reeditada para sair do ar o mais breve possível. A baixa audiência e o texto ácido e cheio de conotações sexuais são apontados como os motivos para a solução drástica.

Bebê a Bordo, exibida originalmente em 1988, era bastante moderna para o seu tempo. E sua reprise reforçou a modernidade da trama pop de Carlos Lombardi. Bastante calcada na cultura oitentista, e surfando na tendência ágil do videoclipe, Bebê a Bordo tinha um ar arrojado, percebida nos cenários modernosos e surreais, nos diálogos rápidos, ferinos e repletos de insinuações sexuais, e no figurino baseado nas estrelas do pop da época. Além disso, ainda tinha o luxo de trazer a diva Dina Sfat em seu último papel na televisão, Tony Ramos num raro momento comédia, e a sempre ótima Isabela Garcia em plena forma. Por conta disso, os cortes promovidos pelo canal deixaram os fãs da obra bastante frustrados.

Não se pode supor que a baixa audiência tenha sido o motivo para a decisão inédita. Afinal, não seria a primeira vez que o Viva não emplaca uma reapresentação. O mais provável é que o canal tenha cedido aos apelos de parte do público, que considera a trama apelativa. E isso é triste. Triste constatar que, em pleno século 21, uma trama que já foi considerada transgressora, ser hoje enxergada como de baixo nível. Fica a péssima impressão de que estamos mais conservadores hoje do que há 30 anos.

Além disso, a decisão abre precedentes incômodos. O canal pode, a partir daí, escolher reprises de novelas que passem longe da polêmica, reduzindo as possibilidades de muitas outras tramas clássicas serem revistas. E pode, também, voltar a editar e retalhar capítulos de qualquer outra novela que venha a exibir, deixando os fãs saudosos ainda mais aborrecidos. É uma pena.

Ainda sobre o Viva, o canal voltou atrás na decisão de reapresentar Roda de Fogo. A trama de Lauro César Muniz, originalmente exibida em 1986, seria a substituta de Explode Coração na faixa das 23h30. Entretanto, a saga de Renato Villar (Tarcísio Meira) ficará para uma próxima oportunidade, e A Indomada, de 1997, foi a trama escolhida para suceder a história de Gloria Perez. Sinto por Roda de Fogo, que seria a primeira novela de Lauro César Muniz reprisada pelo canal. Por outro lado, A Indomada, escrita por Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares, é bem divertida. A trama consagrou a vilã Maria Altiva (Eva Wilma) e seu bordão “o xente, mai gód!”. 

André Santana

terça-feira, 1 de maio de 2018

História da TV: há 17 anos, Vera Loyola tentava ser Hebe na CNT

"Quem quer pão?"

No início do século 21, haviam algumas figuras que eram habitués dos programas de entrevistas e revistas que destacavam o cotidiano dos ricos e famosos. Uma delas era Vera Loyola, socialite emergente que enriqueceu tocando uma rede de padarias no Rio de Janeiro. Vera aparecia muito na TV e nas revistas, pelos mais variados motivos. Dentre seus “feitos”, estavam seu carro com tapete persa e uma festa de aniversário para sua cachorra Pepezinha que deu o que falar. Eram tempos mais ingênuos...

Tamanha popularidade rendeu à Vera o convite para assumir um programa de auditório no horário nobre da CNT, hoje completamente jogada às traças (e aos telecultos). O Programa Vera Loyola estreava no dia 31 de maio de 2001, e era exibido às quintas-feiras, por volta das 22 horas. Num cenário cafona toda vida e mais escuro que a Batcaverna, Vera tinha um sofá onde recebia convidados, tal qual Hebe Camargo. Ao seu redor, indefectíveis tapetes persas, um mordomo gay afetadíssimo (Silva, vivido pelo ator Gil Latoreira) e uma cachorrinha que carregava as fichas da apresentadora.

Além dos tapetes, do mordomo e do cachorro, outro elemento facilmente associado ao universo da socialite estava no programa: o pão. No quadro “O Pão e a Baguete”, Vera recebia um homem (o pão) e uma mulher (a baguete), que se destacaram por algum motivo. Eles contavam suas histórias e ganhavam um mimo de Vera Loyola: uma cestinha de pães vinda de uma de suas padarias.

E isso não é tudo. Esbanjando originalidade, Vera Loyola comandava o quadro “Pra Quem Você Estende o Tapete”, uma versão persa do “Pra Quem Você Tira o Chapéu” do Programa Raul Gil. Nele, Vera recebia convidados que estendiam ou não o tapete para várias personalidades. Sobre o quadro, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos escreveu, em julho de 2001: “Imaginem que uma das atrações de Vera Loyola quinta-feira passada foi o nosso fofo Rubens Ewald Filho, coitado, anunciado o tempo todo pela emergente como Ewaldo. Com aquelas bochechinhas, aquele cavanhaque, debaixo da escuridão do CNT, Ewald parecia o Boris, não o Casoy, outro fofo, mas o Boris Karloff dos filmes de terror. Lá em casa todos morremos de medo quando Ewaldo, desiluminado, sem aquela maquiagem que nas noites de Oscar fazem róseas porcelanas suas bochechas, negou-se a estender o tapete para Marta Suplicy (...). Ewald fez uma cara enfezadinha para a câmera e disse: ‘Não, Vera, não estendo o tapete para Marta porque já dividi camarim com ela no tempo da Globo. E ela nunca falou comigo. Não estendo o tapete porque Marta é arrogante’”.

E tudo isso era embalado pela inacreditável música-tema do programa, que Vera revelou ao jornal Folha de S. Paulo que tinha sido composta “por um fã”. A letra dizia: “Sou mais Vera Loyola, que vive do dinheiro do seu pão/ Tem festa toda hora, até pra cadela de estimação/ Sou mais Vera Loyola, cansei de ouvir falar em tradição”. Vera estava tão empolgada na época da estreia, que revelou na mesma Folha de S. Paulo: "Minha música vai se tornar um hino pop, daqui a pouco todo mundo vai estar cantando”. Na mesma entrevista, concedida à repórter Claudia Croitor e publicada em 27 de maio de 2001, ela concluiu: “Eu não sou uma artista, só vou viver com os artistas. Sou uma socialite popular. Mas eu tenho alguns títulos além de socialite. Sou empresária, apresentadora de TV, escritora... Eu sou Vera Loyola, é melhor do que isso tudo”.

André Santana